Por que você escreve?
Não foi bem assim. Recebi o diagnóstico, e como não tenho seguro de vida, decidi escrever um bestseller. Para garantir o futuro dos meus filhos. A Editora _________ comprou os direitos por quase sete dígitos.
E por que você não começou a escrever antes?
Estava ocupado em viver.
:: 25.08.2017 ::
Mostrando postagens com marcador CONTO - PESSOAS ALTERADAS. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador CONTO - PESSOAS ALTERADAS. Mostrar todas as postagens
sexta-feira, 25 de agosto de 2017
terça-feira, 4 de outubro de 2016
Pequenas maldades cotidianas
Festinha do meu aniversário de oito anos. A criançada corria pelo apartamento simples e de cômodos grandes em que morávamos no Alto da Glória. Entre os convidados havia uma japonesinha com quem eu nem tinha proximidade, mas acabou indo por estudar na mesma escola e ser vizinha.
As crianças se empenhavam no ritual insano de correr, comer um doce, tomar refri e dá-lhe correr, que de tempo em tempo minha mãe interrompia para eu receber os parabéns de algum convidado e... o presente, claro! Uma tia trouxe uma caixinha que até me animou. Sacudi, um certo peso, desembrulhei e era um joguinho de... sabonetes especiais. A alegria da criançada. Saiba que isso era comum antigamente, tempos bicudos.
Disfarcei, sublimei, e estava voltando para a correria, mas tinha a japonesinha, meio gordinha, pragmática até os ossos, assim que eu coloquei os sabonetes entre os presentes ela parou do meu lado e disse “Com esse presente ela está dizendo que você fede, que precisa tomar banho”.
No momento aquilo só me causou um certo desconforto. Mas hoje, consciente, repensando o pequeno ato de maldade involuntária (ela só repetiu o que aprendeu), a conclusão é que a raça humana não passa de lixo empilhado.
Eu era moleque ainda quando tive uma experiência que me jogou na cara o quanto o ser humano é desprezível, e que não há salvação. Só correr desesperadamente como crianças em festas de aniversário.
:: 04.10.2016 ::
As crianças se empenhavam no ritual insano de correr, comer um doce, tomar refri e dá-lhe correr, que de tempo em tempo minha mãe interrompia para eu receber os parabéns de algum convidado e... o presente, claro! Uma tia trouxe uma caixinha que até me animou. Sacudi, um certo peso, desembrulhei e era um joguinho de... sabonetes especiais. A alegria da criançada. Saiba que isso era comum antigamente, tempos bicudos.
Disfarcei, sublimei, e estava voltando para a correria, mas tinha a japonesinha, meio gordinha, pragmática até os ossos, assim que eu coloquei os sabonetes entre os presentes ela parou do meu lado e disse “Com esse presente ela está dizendo que você fede, que precisa tomar banho”.
No momento aquilo só me causou um certo desconforto. Mas hoje, consciente, repensando o pequeno ato de maldade involuntária (ela só repetiu o que aprendeu), a conclusão é que a raça humana não passa de lixo empilhado.
Eu era moleque ainda quando tive uma experiência que me jogou na cara o quanto o ser humano é desprezível, e que não há salvação. Só correr desesperadamente como crianças em festas de aniversário.
:: 04.10.2016 ::
segunda-feira, 7 de dezembro de 2015
Entre as diversas formas de tortura no trabalho, o amigo secreto
Odeio me integrar com o pessoal do escritório. É uma falsidade gritante, terra de canibalismo. Quando armam os happyhours arrumo um compromisso falso e fujo para casa, para aquilo que faço toda noite, o que, a propósito, não tem nada de especial.
Só que em 2014 não escapei do amigo secreto de fim de ano. A dona da empresa marcou um churrasco no começo de dezembro porque ela, como é minha rotina, tiraria férias a partir de meados de dezembro. Cada um com seus motivos.
Peguei a própria no sorteio. É o que me faltava: além de comprar presente para a secretária do financeiro, casadinha e minha amante depravada, eu teria de perder mais tempo e comprar algo para a chefe, mulher difícil e que tem tudo. Pior, entregar na frente de toda a equipe. Tentei até subornar o estagiário para trocar o amigo secreto, mas ele nem por dinheiro ele quis minha sina.
Passei horas no shopping para resolver a fórmula e acabei comprando dois jogos de lingerie sensuais, tamanhos bem diferentes, a propósito.
No dia do amigo secreto comecei a me embriagar em casa, vodca-da-manhã, a santa bebida que não deixa gosto. Na firma, quando me chamaram para o churrasco, eu dormia sobre a mesa.
Eu sentia náuseas enquanto assistia ao joguinho insuportável de adivinhações, e quando me chamaram ganhei um par de meias pretas. Não uso meia preta nem de terno. Vontade de por uma no pinto e estragar a festa me exibindo para a mulherada. Então foi minha vez. Claro que confundi os pacotes e dei a lingerie tamanho grande para a chefe. Quando ela abriu foi um escarcéu. Depois de muitas risadas do galinheiro corporativo, disfarcei e fiz que fui pegar o presente "de verdade". E não é que acertei o tamanho da calcinha? Já o sutiã ficou aparentemente apertado. Duro foi, depois, negociar com a cavala do financeiro a entrega do presente desembrulhado.
Pensar que ainda faltavam dezoito dias para a minha tradição natalina: vontade irrefreável de suicídio.
:: 25.11.2015 :: miniconto de natal
Só que em 2014 não escapei do amigo secreto de fim de ano. A dona da empresa marcou um churrasco no começo de dezembro porque ela, como é minha rotina, tiraria férias a partir de meados de dezembro. Cada um com seus motivos.
Peguei a própria no sorteio. É o que me faltava: além de comprar presente para a secretária do financeiro, casadinha e minha amante depravada, eu teria de perder mais tempo e comprar algo para a chefe, mulher difícil e que tem tudo. Pior, entregar na frente de toda a equipe. Tentei até subornar o estagiário para trocar o amigo secreto, mas ele nem por dinheiro ele quis minha sina.
Passei horas no shopping para resolver a fórmula e acabei comprando dois jogos de lingerie sensuais, tamanhos bem diferentes, a propósito.
No dia do amigo secreto comecei a me embriagar em casa, vodca-da-manhã, a santa bebida que não deixa gosto. Na firma, quando me chamaram para o churrasco, eu dormia sobre a mesa.
Eu sentia náuseas enquanto assistia ao joguinho insuportável de adivinhações, e quando me chamaram ganhei um par de meias pretas. Não uso meia preta nem de terno. Vontade de por uma no pinto e estragar a festa me exibindo para a mulherada. Então foi minha vez. Claro que confundi os pacotes e dei a lingerie tamanho grande para a chefe. Quando ela abriu foi um escarcéu. Depois de muitas risadas do galinheiro corporativo, disfarcei e fiz que fui pegar o presente "de verdade". E não é que acertei o tamanho da calcinha? Já o sutiã ficou aparentemente apertado. Duro foi, depois, negociar com a cavala do financeiro a entrega do presente desembrulhado.
Pensar que ainda faltavam dezoito dias para a minha tradição natalina: vontade irrefreável de suicídio.
:: 25.11.2015 :: miniconto de natal
segunda-feira, 28 de setembro de 2015
Quando o dia das crianças não faz mais sentido
Depois de muito pelejar na clínica, acabei me estabelecendo como psicólogo de um colégio particular na capital. Uma escola notadamente da elite e que pagava muito bem. Nada do que eu presenciei desde os tempos de faculdade, desde as histórias cabeludas contadas pelos professores e por minha experiente terapeuta, nada me preparou para o que eu vou contar.
Eu já estava acostumado o lidar com essa gente. A maioria dos casos estava relacionada à fragilidade inerente à psiquê de quem tem tudo que quer. Algumas vezes, até, tinha que reequilibrar professores após enfrentarem a petulância dos alunos e a arrogância dos pais, felizmente exceções, mas bastante desagradáveis.
Então alguma coisa na “saúde mental” da escola saiu dos trilhos. Dava para perceber nos corredores e nos pequenos casos de histeria que eu tinha que administrar. O alarme soou mesmo quando uma aluna bastante amadurecida fisicamente pelos, vamos dizer, quinze anos, começou a se insinuar para mim. Justamente eu, que na época não costumava cuidar da aparência e menos ainda do guarda-roupas. Eu que fazia questão de passar despercebido em todas as ocasiões.
Comecei a investigar, conversar detidamente com cada aluno que entrava em minha sala. Busquei o significado por trás de cada palavra ou somatização. Estive mais presente nos corredores observando as manifestações e burburinhos. E, claro, entrei a fundo (sem trocadilho) no caso da aluna que me ofereceu quase que escancaradamente suas virtudes.
O que minha intuição já sugeria, a conversa com um garoto revoltado após uma briga confirmou. O pequeno Bruno se atracou com um atleta do time de judô, apanhou feio, e mesmo assim não se rendeu. Chegou a minha sala retraído. Transpirava revolta. Depois de rodeios profissionais, muita confiança conquistada, e antes de chamarmos os pais à escola, ouvi o pequeno confessar que o judoca se gabou de o pai ter transado com a garota que ele, Bruno, gostava.
Comecei a chamar aquele movimento de “Mandala de Electra”. Um grupo de doze a treze garotas que se desafiavam mutuamente a seduzir os pais umas das outras. Sobrou pra mim, inferi, porque o pai de uma delas morava em Londres.
Cumpri meu papel e denunciei o “joguinho” perigoso ao conselho da escola, que era a quem eu me reportava (sim, eu exercia uma espécie de auditoria moral em relação aos corpos discente, docente e ao diretor). Nas investigações e interrogatórios que se seguiram, descobriu-se que mais da metade das componentes da “mandala” logrou êxito no desafio.
É bom frisar que se trataram de investigações de caráter administrativo. O caso foi sumariamente abafado e a polícia não tomou conhecimento. Aliás, tomou, porque não aceitei e denunciei: delegado, ministério público, juiz e até jornalistas. Ninguém moveu um dedo.
Não sei que proporções, nos dias de hoje, na era da transparência, um escândalo deste tomaria. O fato é que perdi o emprego e, evidentemente, abri mão da paternidade.
:: 28.09.2015 ::
Eu já estava acostumado o lidar com essa gente. A maioria dos casos estava relacionada à fragilidade inerente à psiquê de quem tem tudo que quer. Algumas vezes, até, tinha que reequilibrar professores após enfrentarem a petulância dos alunos e a arrogância dos pais, felizmente exceções, mas bastante desagradáveis.
Então alguma coisa na “saúde mental” da escola saiu dos trilhos. Dava para perceber nos corredores e nos pequenos casos de histeria que eu tinha que administrar. O alarme soou mesmo quando uma aluna bastante amadurecida fisicamente pelos, vamos dizer, quinze anos, começou a se insinuar para mim. Justamente eu, que na época não costumava cuidar da aparência e menos ainda do guarda-roupas. Eu que fazia questão de passar despercebido em todas as ocasiões.
Comecei a investigar, conversar detidamente com cada aluno que entrava em minha sala. Busquei o significado por trás de cada palavra ou somatização. Estive mais presente nos corredores observando as manifestações e burburinhos. E, claro, entrei a fundo (sem trocadilho) no caso da aluna que me ofereceu quase que escancaradamente suas virtudes.
O que minha intuição já sugeria, a conversa com um garoto revoltado após uma briga confirmou. O pequeno Bruno se atracou com um atleta do time de judô, apanhou feio, e mesmo assim não se rendeu. Chegou a minha sala retraído. Transpirava revolta. Depois de rodeios profissionais, muita confiança conquistada, e antes de chamarmos os pais à escola, ouvi o pequeno confessar que o judoca se gabou de o pai ter transado com a garota que ele, Bruno, gostava.
Comecei a chamar aquele movimento de “Mandala de Electra”. Um grupo de doze a treze garotas que se desafiavam mutuamente a seduzir os pais umas das outras. Sobrou pra mim, inferi, porque o pai de uma delas morava em Londres.
Cumpri meu papel e denunciei o “joguinho” perigoso ao conselho da escola, que era a quem eu me reportava (sim, eu exercia uma espécie de auditoria moral em relação aos corpos discente, docente e ao diretor). Nas investigações e interrogatórios que se seguiram, descobriu-se que mais da metade das componentes da “mandala” logrou êxito no desafio.
É bom frisar que se trataram de investigações de caráter administrativo. O caso foi sumariamente abafado e a polícia não tomou conhecimento. Aliás, tomou, porque não aceitei e denunciei: delegado, ministério público, juiz e até jornalistas. Ninguém moveu um dedo.
Não sei que proporções, nos dias de hoje, na era da transparência, um escândalo deste tomaria. O fato é que perdi o emprego e, evidentemente, abri mão da paternidade.
:: 28.09.2015 ::
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Escândalo I
Era de classe média alta para cima, dessas que rotulavam “de sociedade”
e só se satisfazia de um jeito, fosse namoradinho ou parceiro casual: fazer sexo
oral no estacionamento de um shopping center bem localizado. Sabe-se lá se era
a adrenalina de poderem ser flagrados, ou um fetiche gourmet de, logo após
engolir, ir à praça de alimentação e pedir um Mac para rebater a “amarra”.
Marcadores:
CONTO - PESSOAS ALTERADAS,
MICROSSÉRIE
terça-feira, 25 de novembro de 2014
Grau indefinido de parentesco
Jorge e Jean eram primos de primeiro grau. Embora morassem em cidades distantes, passavam juntos as férias da infância e adolescência no sítio da vó Laurinda. Eram companheiraços nas brincadeiras e aventuras de criança, desde jogar bola até nadar no rio.
Foi natural o distanciamento lá pela metade do segundo grau, e aí vieram a universidade e os primeiros namoros, cada um seguiu seu rumo.
Então a prima Soninha marcou um daqueles grandes encontros de família num natal no sítio da avó. Reuniu gente de todo lado, aliás, veio praticamente todo mundo! Iniciados os festejos, os dois se encontraram e, enquanto lembravam dos velhos tempos, o Jorge notou que o Jean estava mais delicado, meio arrumadinho demais. Depois que bebeu “um frisante”, ficou até afetadinho. O Jorge puxou uns assuntos de mulher, mas o Jean não engatou. Só pode ser coisa de agora, pensou, pois em certas ocasiões até cama dividiram, e nunca que o primo manifestou esse lado borboleta.
O fato é que a festa seguiu, e se distraíram nas conversas com os demais, e chegou a hora de acomodar a “parentaiada”. Como a casa principal ficou lotada, sobrou para o Jorge e o Jean o quartinho de trás que eles dividiam nos tempos de moleque. A vó Laurinda fez questão de arrumar as camas do jeito que fazia quando eram crianças.
O Jorge ficou meio incomodado, se trocou no banheiro, aproveitou que estava embalado nas cervejas, apagou a luz e virou pro seu lado pra dormir. Nem o digitar nervoso do primo em mensagens no celular incomodou. Nem as risadinhas contidas. Mas o sono não vinha. Aí começou a ouvir um barulho, um fap-fap-fap suspeito que aumentava e diminuía de ritmo. A respiração do Jean ficava mais pesada. Só falta o infeliz estar batendo uma na cama ali do lado. No que estará se inspirando? Será que é sexo virtual? Será que é sexo GAY virtual?
Pior é que o Jorge não tinha coragem de olhar pra trás pra ver se era aquilo mesmo (enfim, era uma conjectura), nem de falar alguma coisa pra cortar o clima. Aí, o que no início era um fap-fap-fap discreto parecia que tomava conta de todo quarto. Vai que ele está virado para o meu lado! E se a inspiração sou eu? Vai que ele chega lá e respinga alguma coisa em mim!
Então o Jorge não se conteve, levantou no escuro mesmo, e disse com uma voz imponente: “Desculpa incomodar, primo. Minha bexiga está cheia. Vou explodir se não mijar.” E foi para o banheiro. Quando voltou, o Jean já estava dormindo todo encolhidinho.
:: 25.11.2014 ::
Foi natural o distanciamento lá pela metade do segundo grau, e aí vieram a universidade e os primeiros namoros, cada um seguiu seu rumo.
Então a prima Soninha marcou um daqueles grandes encontros de família num natal no sítio da avó. Reuniu gente de todo lado, aliás, veio praticamente todo mundo! Iniciados os festejos, os dois se encontraram e, enquanto lembravam dos velhos tempos, o Jorge notou que o Jean estava mais delicado, meio arrumadinho demais. Depois que bebeu “um frisante”, ficou até afetadinho. O Jorge puxou uns assuntos de mulher, mas o Jean não engatou. Só pode ser coisa de agora, pensou, pois em certas ocasiões até cama dividiram, e nunca que o primo manifestou esse lado borboleta.
O fato é que a festa seguiu, e se distraíram nas conversas com os demais, e chegou a hora de acomodar a “parentaiada”. Como a casa principal ficou lotada, sobrou para o Jorge e o Jean o quartinho de trás que eles dividiam nos tempos de moleque. A vó Laurinda fez questão de arrumar as camas do jeito que fazia quando eram crianças.
O Jorge ficou meio incomodado, se trocou no banheiro, aproveitou que estava embalado nas cervejas, apagou a luz e virou pro seu lado pra dormir. Nem o digitar nervoso do primo em mensagens no celular incomodou. Nem as risadinhas contidas. Mas o sono não vinha. Aí começou a ouvir um barulho, um fap-fap-fap suspeito que aumentava e diminuía de ritmo. A respiração do Jean ficava mais pesada. Só falta o infeliz estar batendo uma na cama ali do lado. No que estará se inspirando? Será que é sexo virtual? Será que é sexo GAY virtual?
Pior é que o Jorge não tinha coragem de olhar pra trás pra ver se era aquilo mesmo (enfim, era uma conjectura), nem de falar alguma coisa pra cortar o clima. Aí, o que no início era um fap-fap-fap discreto parecia que tomava conta de todo quarto. Vai que ele está virado para o meu lado! E se a inspiração sou eu? Vai que ele chega lá e respinga alguma coisa em mim!
Então o Jorge não se conteve, levantou no escuro mesmo, e disse com uma voz imponente: “Desculpa incomodar, primo. Minha bexiga está cheia. Vou explodir se não mijar.” E foi para o banheiro. Quando voltou, o Jean já estava dormindo todo encolhidinho.
:: 25.11.2014 ::
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
O descarte
A receita é simples.
Primeiro procure uma caixa de papelão bem grande e estruturada. Agora as caixas de TV são estreitas, não servem. Nem as de fogão, que são molengas. Pegue a caixa bem montadinha ainda, e coloque uma lona plástica (obviamente sem furos) por dentro. Em loja de autopeças você acha uma caixa ideal. Se aguenta peças de metal, suporta os 65/70 quilos que você estimou.
Enche o fundo da caixa com fraldas descartáveis. Compre uns pacotes da barata, mas recorte e tire as laterais feitas pra prender no bebê. Aquilo só serve pra atrapalhar e o que vale é a parte absorvente.
Com o que sobrar da lona plástica (compre bastante, de vinte metros pra mais) forre o chão. E use uma faca resistente, bem afiada ou de serra (mas se prepare que faca de serra faz mais espirração). Corte nas juntas, onde tem cartilagem. Vai procurando o caminho com a faca. Faca bem afiada acha o caminho sozinha. Olha, vai cansar e dar calos nas mãos. Você vai tomar um suador.
Aproveitou tudo que queria, tem certeza?
Então vai encaixando as partes no fundo da caixa deixando o mínimo de ar possível. Quando acabar, feche bem a lona plástica com fita adesiva grossa (isso, aquela das casas de embalagem), preenche os espaços vazios com bolinhas de isopor ou o que sobrar das fraldas, lacre bem a caixa, passando repetidas camadas da fita adesiva (não economize).
Aí sim você pode despachar. Mas atenção, não envie por sedex que fica caro e fiscalizam. Mande por transportadora. Até amanhã te arrumo uma nota fiscal fria de açougue.
:: 04.08.2014 ::
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Se eu tivesse uma dessas...
Tem um comentário recorrente dirigido a quem, como eu, tem moto grande. Em particular, se for esportiva.
Situação motoboy:
- Se eu tivesse uma dessas, eu não durava uma semana.
- Ah, tá. Quer dizer que você é um cara super corajoso e arrojado e eu sou bundão.
Situação indigente:
- Se eu tivesse uma dessas, eu morria em uma semana.
- Tá bom, flanelinha. Se apresse nessas três pedrinhas de crack que estão no seu bolso, que não passa nem de hoje à noite.
:: 09.10.2013 ::
Situação motoboy:
- Se eu tivesse uma dessas, eu não durava uma semana.
- Ah, tá. Quer dizer que você é um cara super corajoso e arrojado e eu sou bundão.
Situação indigente:
- Se eu tivesse uma dessas, eu morria em uma semana.
- Tá bom, flanelinha. Se apresse nessas três pedrinhas de crack que estão no seu bolso, que não passa nem de hoje à noite.
:: 09.10.2013 ::
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
Aquilo que não posso ter...
A cidade era pequena que Sandra quase não cabia nela. Espírita dissimulada, dona de casa de formas esculturais domadas por Leonel, evangélico convertedor, cabo da PM, ciumento. Só deixava a mulher sair aos domingos comportada na grupa da Barra Forte, Novo Testamento embaixo do braço. Comportada exceto pelo vestido vermelho que era a única coisa de que não abria mão. O vermelho e o salto alto eram como um ruído na igrejinha pentecostal que frequentavam. Depois do culto passeavam apaixonados pela praça.
Num passeio típico desses entraram no açougue e algo estremeceu dentro dela, caiu numa espécie de transe. “Pode ser a Pomba Gira”, disseram. “Também ela vive de vermelho, junta isso com cheiro de carne, é encosto certo.” A cidade ficou comovida com o acontecido.
Um mês passou e estranhamente tudo se arrumou. Sandra voltou ao seu jeito vivaz de ser. Dias depois a tragédia. Numa manhã calorenta foram encontrados os corpos do açougueiro e de Sandra no motelzito da beira estrada. Nus, unidos e amparados por uma faixa vermelha, salpicados de cachaça e penas pretas. Uma vela introduzida na disjuntora, um charuto introduzido no varão. Como Leonel estava na capital, o pastor foi o primeiro a chegar.
:: 23.01.2013 ::
Num passeio típico desses entraram no açougue e algo estremeceu dentro dela, caiu numa espécie de transe. “Pode ser a Pomba Gira”, disseram. “Também ela vive de vermelho, junta isso com cheiro de carne, é encosto certo.” A cidade ficou comovida com o acontecido.
Um mês passou e estranhamente tudo se arrumou. Sandra voltou ao seu jeito vivaz de ser. Dias depois a tragédia. Numa manhã calorenta foram encontrados os corpos do açougueiro e de Sandra no motelzito da beira estrada. Nus, unidos e amparados por uma faixa vermelha, salpicados de cachaça e penas pretas. Uma vela introduzida na disjuntora, um charuto introduzido no varão. Como Leonel estava na capital, o pastor foi o primeiro a chegar.
:: 23.01.2013 ::
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Lugarejo (ou história de terror que Hollywood nunca filmou)
Num lugarejo de trinta e poucas famílias perdidas no meio do mato, ou do nada, como você preferir, a velha coloca uma ponta de galho no fogão a lenha e conta como aconteceu. Era uma moça linda, que nasceu pros lados de cima. A velha reforçou que morava pros lados de baixo, como quem diz eu só sei, não sou eu não moço.
Mas era muito linda mesmo, todo mundo olhava e dizia é um anjo. Até o pessoal da cidade que às vezes aparecia elogiava que ela poderia ser miss. Um dia a moça linda conheceu um rapaz da cidade, e era um tal de andarem juntos pra tudo que é canto que a mãe soltou a verdade sem rodeios: o moço é teu irmão. Desgrudaram como tinha que ser, ele foi embora, mas deixou barriga nela.
Mal nasceu o bebê e a moça linda enfiou-lhe um garfo na goela. Morreu engasgando sangue. O pai enlouqueceu e começou a procurar a filha linda que era dele. A mãe morreu de desgosto. A filha foi dormir com o pai, teve um filho que o pai mesmo fez o parto e enterrou no quintal. No dia seguinte o cachorro andava pra lá e pra cá com o bebê morto na boca. O pai então fez outro filho na filha, e depois de muitos anos fez filho na neta.
:: 25.10.2012 :: história contata por uma... velha
Mas era muito linda mesmo, todo mundo olhava e dizia é um anjo. Até o pessoal da cidade que às vezes aparecia elogiava que ela poderia ser miss. Um dia a moça linda conheceu um rapaz da cidade, e era um tal de andarem juntos pra tudo que é canto que a mãe soltou a verdade sem rodeios: o moço é teu irmão. Desgrudaram como tinha que ser, ele foi embora, mas deixou barriga nela.
Mal nasceu o bebê e a moça linda enfiou-lhe um garfo na goela. Morreu engasgando sangue. O pai enlouqueceu e começou a procurar a filha linda que era dele. A mãe morreu de desgosto. A filha foi dormir com o pai, teve um filho que o pai mesmo fez o parto e enterrou no quintal. No dia seguinte o cachorro andava pra lá e pra cá com o bebê morto na boca. O pai então fez outro filho na filha, e depois de muitos anos fez filho na neta.
:: 25.10.2012 :: história contata por uma... velha
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
Escambo
Botequim de beira de estrada. Eu na mesinha de fora esperando o tempo e o calor passarem. Pensava em dormir relaxado logo depois, e tocar viagem dia seguinte bem cedo. A conversa lá dentro chamou a atenção.
O Sebastião, de meia idade pra mais, engravidou a esposa fogosa, mas pegou nojo de ter com ela grávida. Mal encostava na mulher. Pediu para o amigo Uilso "cuidar" dela durante esse tempo, porque faltar à obrigação acabaria por transformá-la num cramulhão ensandecido. “Eu arrupio só ni pensar”, desabafou.
Passadas umas pingas, o Sebastião começou a negociar com o Uilso pra pegar a mulher dele na troca. Uilso, mais jovem e varonil, retrucou que daria conta das duas, que o amigo fosse procurar uma puta.
O problema é que a mulher do Sebastião era brava e não gostava de puta, não deixaria ele ir com uma qualquer. E claramente ela é que comandava o show, liderança herdada do medo que os outros tinham de enfrentar a febre dos "ormoni". A mulher do Uilso, tadinha, não sabia ainda do acordado.
:: 21.09.2012 :: Doce historinha contada pela incrível Lu
O Sebastião, de meia idade pra mais, engravidou a esposa fogosa, mas pegou nojo de ter com ela grávida. Mal encostava na mulher. Pediu para o amigo Uilso "cuidar" dela durante esse tempo, porque faltar à obrigação acabaria por transformá-la num cramulhão ensandecido. “Eu arrupio só ni pensar”, desabafou.
Passadas umas pingas, o Sebastião começou a negociar com o Uilso pra pegar a mulher dele na troca. Uilso, mais jovem e varonil, retrucou que daria conta das duas, que o amigo fosse procurar uma puta.
O problema é que a mulher do Sebastião era brava e não gostava de puta, não deixaria ele ir com uma qualquer. E claramente ela é que comandava o show, liderança herdada do medo que os outros tinham de enfrentar a febre dos "ormoni". A mulher do Uilso, tadinha, não sabia ainda do acordado.
:: 21.09.2012 :: Doce historinha contada pela incrível Lu
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
Das diversas formas de tornar o filho um macho
O cortiço no fim da rua rendia histórias divertidas para animar as conversas da vizinhança. Eram algumas casinhas germinadas, improvisadas, e, nelas, gerações de famílias amontoavam-se em poucos cômodos. Difícil dizer se a criança era filho, irmão ou neto de alguém. Entre elas tinha o Leozinho, moleque grudento que era o terror quando entrava em casa para brincar. Falava demais, contava vantagem, fuçava em tudo... e a situação se agravou.
A mãe do Leozinho era uma gorda impetuosa, que visivelmente se impingia sensualidade. A ascensão da classe D (bolsa família, bolsa gás, defeso etc.) premiou-os com um aparelho de DVD. Ela então teve a grande ideia de passar filmes pornôs para o filho assistir, desde os dois anos. O pior é que alardeava entre os pares que “assim ele aprende e vira macho”.
Até o dia em que a turminha da rua (os do cortiço e os demais) se enfurnou numa garagem e resolveu brincar de médico ou coisa parecida, e o Leozinho tascou uma dentada no bingolim de outro moleque. De tirar sangue. Necessário explicar o que causou a dentada?
Do posto de saúde (foram só uns pontinhos e um trauma indelével) a mãe do "mordido" foi direto à delegacia dar queixa. A Justa acareou os envolvidos e achou por bem contemporizar.
Dias depois, tudo voltou ao normal na rua, menos as sessões de pornô, pois a mãe desnaturada tomou uma descompostura do delegado e o fato de a presença do Leozinho gerar certo alvoroço e passar a ser monitorada de perto pelas famílias.
:: 13.09.2012 ::
A mãe do Leozinho era uma gorda impetuosa, que visivelmente se impingia sensualidade. A ascensão da classe D (bolsa família, bolsa gás, defeso etc.) premiou-os com um aparelho de DVD. Ela então teve a grande ideia de passar filmes pornôs para o filho assistir, desde os dois anos. O pior é que alardeava entre os pares que “assim ele aprende e vira macho”.
Até o dia em que a turminha da rua (os do cortiço e os demais) se enfurnou numa garagem e resolveu brincar de médico ou coisa parecida, e o Leozinho tascou uma dentada no bingolim de outro moleque. De tirar sangue. Necessário explicar o que causou a dentada?
Do posto de saúde (foram só uns pontinhos e um trauma indelével) a mãe do "mordido" foi direto à delegacia dar queixa. A Justa acareou os envolvidos e achou por bem contemporizar.
Dias depois, tudo voltou ao normal na rua, menos as sessões de pornô, pois a mãe desnaturada tomou uma descompostura do delegado e o fato de a presença do Leozinho gerar certo alvoroço e passar a ser monitorada de perto pelas famílias.
:: 13.09.2012 ::
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
Alopatia no tratamento do alcoolismo - Caso 2
O OUTRO LADO DA MOEDA - Um camarada encontrou o Armando na Praça Santos Andrade e, como médico nenhum consegue evitar, partiu para uma consulta informal:
“Você sabe que eu só bebo em casa, né? Diminuí quase totalmente as botequeadas.”
“É, em casa a gente acaba até bebendo menos.”
“Não é bem o meu caso. Mas sabe que acho que peguei uma alergia à cerveja daqui? Deve ser coisa da água.”
“Como assim?”
“É eu tomar umas cervejas e me dá um vermelhão, me sinto mal, formiga tudo. Como se desse ressaca na hora. Fico ruim de despencar na cama.”
“Ah, isso é sensibilidade a álcool. Pode aparecer com a idade. Não tem nada a ver com bebida da região.”
“Que nada. Dia desses fui num futebol com os amigos num sítio perto de Joinville. Depois rolou churrasco, e aí você sabe. Tomei caipira, pinga, uma cervejinha... primeiro com certo receio, e como não deu nenhum ruim, entornei o caldo. A bebida daqui é que me faz mal.”
O Armando achou melhor o amigo descobrir sozinho o estratagema.
Registre-se que o namoro do Zé com o projeto de rádio patroa não vingou.
:: 15.08.2012 ::
“Você sabe que eu só bebo em casa, né? Diminuí quase totalmente as botequeadas.”
“É, em casa a gente acaba até bebendo menos.”
“Não é bem o meu caso. Mas sabe que acho que peguei uma alergia à cerveja daqui? Deve ser coisa da água.”
“Como assim?”
“É eu tomar umas cervejas e me dá um vermelhão, me sinto mal, formiga tudo. Como se desse ressaca na hora. Fico ruim de despencar na cama.”
“Ah, isso é sensibilidade a álcool. Pode aparecer com a idade. Não tem nada a ver com bebida da região.”
“Que nada. Dia desses fui num futebol com os amigos num sítio perto de Joinville. Depois rolou churrasco, e aí você sabe. Tomei caipira, pinga, uma cervejinha... primeiro com certo receio, e como não deu nenhum ruim, entornei o caldo. A bebida daqui é que me faz mal.”
O Armando achou melhor o amigo descobrir sozinho o estratagema.
Registre-se que o namoro do Zé com o projeto de rádio patroa não vingou.
:: 15.08.2012 ::
Marcadores:
CONTO - PESSOAS ALTERADAS,
MICROSSÉRIE
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
Alopatia no tratamento do alcoolismo - Caso 1
Terminada a visita periódica ao ginecologista, a paciente faz um pedido:
“O doutor pode me fazer uma receita de Sarcoton?”
“É para a senhora?”
“Não, não. É que meu marido anda exagerando na bebida. Vou colocar na comida dele.”
“Mas o tratamento do alcoolismo só funciona se o paciente tiver firme propósito de parar de beber.”
“Ele não quer parar, doutor. É teimoso feito uma porta e bebe até ficar como um porco.”
“Tudo bem, vou fazer a receita. Mas a senhora tome cuidado, que se ele descobre vai lhe cobrir de porrada.”
“O doutor pode me fazer uma receita de Sarcoton?”
“É para a senhora?”
“Não, não. É que meu marido anda exagerando na bebida. Vou colocar na comida dele.”
“Mas o tratamento do alcoolismo só funciona se o paciente tiver firme propósito de parar de beber.”
“Ele não quer parar, doutor. É teimoso feito uma porta e bebe até ficar como um porco.”
“Tudo bem, vou fazer a receita. Mas a senhora tome cuidado, que se ele descobre vai lhe cobrir de porrada.”
Marcadores:
CONTO - PESSOAS ALTERADAS,
MICROSSÉRIE
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
Alopatia no tratamento do alcoolismo
Lembra da época em que o Zé dividia uma república com o Armando, estudante de medicina? Um dia uma namoradinha do Zé perguntou para o Armando se ainda existia aquele medicamento Tiralcool enquanto olhava torto para o Zé entornando uns gorós excessivos no boteco.
Como o MCP também é cultura, o nome do medicamento mais comum hoje para tratar alcoolismo é Sarcoton. A bula diz: “Indicado como auxiliar no tratamento do alcoolismo crônico. Ele não é a cura para o alcoolismo; simplesmente fornece ao indivíduo um apoio ao seu desejo sincero de parar de beber. (...) A ingestão de álcool por indivíduos previamente tratados com Sarcoton (Dissulfiram), dá origem à sinais e sintomas acentuados, conhecidos como reação dissulfiram-álcool, caracterizados por: sensação de rosto quente, vermelhidão no rosto, dor de cabeça intensa, dificuldade de respirar, náusea, vômitos, suor, sede, fraqueza, vertigem, visão turva. O rubor facial é substituído por palidez, seguida de queda da pressão arterial.”
Como o MCP também é cultura, o nome do medicamento mais comum hoje para tratar alcoolismo é Sarcoton. A bula diz: “Indicado como auxiliar no tratamento do alcoolismo crônico. Ele não é a cura para o alcoolismo; simplesmente fornece ao indivíduo um apoio ao seu desejo sincero de parar de beber. (...) A ingestão de álcool por indivíduos previamente tratados com Sarcoton (Dissulfiram), dá origem à sinais e sintomas acentuados, conhecidos como reação dissulfiram-álcool, caracterizados por: sensação de rosto quente, vermelhidão no rosto, dor de cabeça intensa, dificuldade de respirar, náusea, vômitos, suor, sede, fraqueza, vertigem, visão turva. O rubor facial é substituído por palidez, seguida de queda da pressão arterial.”
Marcadores:
CONTO - PESSOAS ALTERADAS,
MICROSSÉRIE
quinta-feira, 12 de julho de 2012
Jukebox
Eu tinha quatro anos quando minha mãe foi trabalhar na zona. Ela abriu uma lojinha de roupa de criança. Nesse novo habitat havia casas e bares repletos de moças bem dispostas e alegres. Elas adoravam os vestidos e camisetas vermelhas da vitrine.
Nordestinas, catarinenses e até umas moças das redondezas, sempre a mesma história: gravidez precoce, azar na vida e/ou trazidas por algum caminhoneiro que, com promessa de vida melhor em outro lugar, as tiravam da miséria e descarregavam ali na cidadezinha portuária.
No inicio os olhos tinham brilho, pele jovial e viçosa, carne nova como diziam. Frequentavam a loja, compravam os artigos mais caros, tinham motorista de táxi cativo e podiam até recusar convites dos ensacadores fedidos de suor e soja. Meses depois já estavam mais velhas uns cinco anos, corroídas por noites em claro, abortos, bebida e droga, carne passada. Nos olhos o brilho cedia lugar para o vazio. Ganhavam pouco por muito trabalho, passavam a escolher a roupa mais em conta e pagavam fiado.
Depois desse cenário, precisei de anos de terapia para aceitar que não sou brega. Mesmo assim, no bar, às vezes coloco uma moeda na jukebox e escolho uma música doída de amor perdido.
:: 15.06.2004 ::
Nordestinas, catarinenses e até umas moças das redondezas, sempre a mesma história: gravidez precoce, azar na vida e/ou trazidas por algum caminhoneiro que, com promessa de vida melhor em outro lugar, as tiravam da miséria e descarregavam ali na cidadezinha portuária.
No inicio os olhos tinham brilho, pele jovial e viçosa, carne nova como diziam. Frequentavam a loja, compravam os artigos mais caros, tinham motorista de táxi cativo e podiam até recusar convites dos ensacadores fedidos de suor e soja. Meses depois já estavam mais velhas uns cinco anos, corroídas por noites em claro, abortos, bebida e droga, carne passada. Nos olhos o brilho cedia lugar para o vazio. Ganhavam pouco por muito trabalho, passavam a escolher a roupa mais em conta e pagavam fiado.
Depois desse cenário, precisei de anos de terapia para aceitar que não sou brega. Mesmo assim, no bar, às vezes coloco uma moeda na jukebox e escolho uma música doída de amor perdido.
:: 15.06.2004 ::
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Era neném, não tinha talco, mamãe passou açúcar em mim*
Começo dos anos 80. A Vila Pinto era boca quente. Minha mãe era vapor e meu pai, braço direito do patrão e “químico experimental”. Eu lá pelos dez meses, cheio de assaduras — Curitiba não é brincadeira, não dá pra criança andar pelada pela casa, é frio de verdade — e nada de talquinho para proteger minha pele delicada da umidade. Aliás, aquele barraco era puro mofo.
A farmácia mais próxima ficava a três quilômetros. E não é que, na intuição, às vezes eles acertavam as coisas? A mistureba era tanta, que minha mãezinha não viu mal em sapecar aquele pó malhado nas dobrinhas assadas e cheias de brotoejas do bebê. Aparentemente nunca fez mal, e não lembro de ter me tornado uma criança hiperativa. Naquela área não tinha dessas frescuras.
Estudei no colégio Tiradentes e meu uniforme era kichute sem meia e calça azul de listras brancas. Meu hobbie era tacar pedras em vidraças de prédios abandonados. Cresci e mudei a vocação do negócio familiar para panificação — da farinha à farinha. Meu pão bundinha faz sucesso em toda a vila.
:: 03.05.2012 :: *Trecho emblemático de música do soulman brasileiro Wilson Simonal
A farmácia mais próxima ficava a três quilômetros. E não é que, na intuição, às vezes eles acertavam as coisas? A mistureba era tanta, que minha mãezinha não viu mal em sapecar aquele pó malhado nas dobrinhas assadas e cheias de brotoejas do bebê. Aparentemente nunca fez mal, e não lembro de ter me tornado uma criança hiperativa. Naquela área não tinha dessas frescuras.
Estudei no colégio Tiradentes e meu uniforme era kichute sem meia e calça azul de listras brancas. Meu hobbie era tacar pedras em vidraças de prédios abandonados. Cresci e mudei a vocação do negócio familiar para panificação — da farinha à farinha. Meu pão bundinha faz sucesso em toda a vila.
:: 03.05.2012 :: *Trecho emblemático de música do soulman brasileiro Wilson Simonal
quarta-feira, 25 de abril de 2012
Acontece com quem chega de fininho
Reunião de trabalho tensa, densa. Horas debatendo assuntos que patinavam, o chefe às vezes ameaçador, às vezes distraído. O tempo demora passar. Tomo água, bastante, para me manter acordado. Não me sujeitei ao vício do café, mas isso tem consequências.
O almoço não caiu bem, o intervalo foi curto e comi rápido, e continua a tortura. Sinto movimentos na barriga. E o chefe polidamente descasca uma descompostura para toda a equipe. Minha bexiga me mata depois de mais um copo d'água.
Meio da tarde, quando o ritmo diminui e o chefe atende um telefonema, escapo para o banheiro. Dou aquela geral, inclusive sob as portas: estou sozinho. Viro para o mictório, deságuo e, com o relaxamento, solto um peido tão longo que atinge três notas musicais.
Percebo um movimento atrás. Batata que o chefe está na pia contendo uma reação ao meu solo. Não consigo segurar: "Acontece com quem é muito discreto". Ele não entende e replica: "Você é MUITO discreto!"
Volto para a sala, ele me segue e encerra a reunião em minutos. Nunca mais se falou no assunto.
quarta-feira, 7 de março de 2012
Luto pelas namoradas de papel
Tem coisa que só tem graça fazer quando não se tem idade. Na nossa época era entrar no cinema nos filmes pornôs (ou maiores de 18 anos) e comprar revista de mulher pelada. Tinha todo um ritual para chegar na banca, ficar ali sem saber o que dizer pro jornaleiro, escolher a revista meio que sem olhar direito, colocar debaixo da camisa e ir pra casa. Passar pela sala disfarçando aquele volume esquisito e ir direto para o quarto ou banheiro.
Eram inesquecíveis nossas namoradas de papel. Cada um desenvolvia uma técnica, porque não era fácil segurar a revista com uma mão e virar as páginas enquanto a outra trabalhava. Eram paixões insanas e sem limites. Com elas não tinha esse negócio de tempestades emocionais, discussões ou ciúmes. Quando alguém enjoava da revista, sem problema emprestava para os amigos. E o amigo ficava feliz ao receber, mesmo com as páginas grudadas.
Com a playboy era diferente porque “tem matérias interessantes, não é por causa das fotos”. A gente já estava no colégio e tomava a liberdade de folhear quase que publicamente. A playboy pulava de mão em mão nos intervalos das aulas, entre risinhos das meninas (algumas até se encorajavam a folhear). Constrangedor mesmo era quando chegava ao Juninho, nosso colega mais afeminado quase que saindo do armário. Ele não deixava de folhear a revista, mas dava para perceber o interesse forçado e um certo nojo nas pontas dos dedos.
Hoje as revistas de mulher pelada ou de sacanagem perderam o sentido. É só navegar na internet e estão todas lá, mostrando e fazendo tudo que qualquer mente pervertida imaginar. Nunca mais teremos a inocência e o romance das namoradas de papel.
:: 05.05.2008 ::
Eram inesquecíveis nossas namoradas de papel. Cada um desenvolvia uma técnica, porque não era fácil segurar a revista com uma mão e virar as páginas enquanto a outra trabalhava. Eram paixões insanas e sem limites. Com elas não tinha esse negócio de tempestades emocionais, discussões ou ciúmes. Quando alguém enjoava da revista, sem problema emprestava para os amigos. E o amigo ficava feliz ao receber, mesmo com as páginas grudadas.
Com a playboy era diferente porque “tem matérias interessantes, não é por causa das fotos”. A gente já estava no colégio e tomava a liberdade de folhear quase que publicamente. A playboy pulava de mão em mão nos intervalos das aulas, entre risinhos das meninas (algumas até se encorajavam a folhear). Constrangedor mesmo era quando chegava ao Juninho, nosso colega mais afeminado quase que saindo do armário. Ele não deixava de folhear a revista, mas dava para perceber o interesse forçado e um certo nojo nas pontas dos dedos.
Hoje as revistas de mulher pelada ou de sacanagem perderam o sentido. É só navegar na internet e estão todas lá, mostrando e fazendo tudo que qualquer mente pervertida imaginar. Nunca mais teremos a inocência e o romance das namoradas de papel.
:: 05.05.2008 ::
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
Nova modalidade
Na minha família tem um cirurgião plástico que se tornou, na região dele, em algo como o rei dos implantes de silicone. Enriqueceu por isso, e como o assunto rende, acabou se tornando em alguns momentos, mesmo sendo discreto, no centro das atenções nas reuniões de família.
O patriarca, por sua vez, é um sujeito vivido e grosso, do alto dos seus oitenta e poucos. Viu muita coisa, viu gente morrer de bala e virgindade ser leiloada em casa de tolerância, e vê safadeza em tudo. Felizmente viu os filhos vingarem homens bem sucedidos, graças a sua energia e à indispensável dedicação da santa mulher com quem casou.
No natal o assunto veio de novo à baila durante a ceia, quando o filho do cirurgião, estudante de medicina, comentou da aberração que era o travesti cujos implantes caseiros de bunda despencaram pela perna e do outro que desejava 500 mililitros de silicone em cada peito. Neste caso, o pai se negou a atender o pedido, mas devido à fortuna oferecida, acabou cedendo.
Um primo falou que travestis deviam investir mais em cortar fora as trombinhas. O estudante, inteirado dos negócios, esclareceu que seria como acabar com o verdadeiro ganha-pão deles — e explicou por que. O patriarca suspirou. Então no fervor do álcool uma tia carola confessou seu espanto, pois não sabia que "esses travestis" (imagine um tom asqueroso) ganhavam tanto. O cirurgião corrigiu, explicou que quem pagava os implantes era o cafetão.
Percebi que o patriarca arregalou os olhos. Passou o resto da festa resmungando para quem quisesse ouvir: "Cafetão de travesti. É o que me faltava. Onde esse mundo vai acabar?"
:: 26.12.2011 ::
O patriarca, por sua vez, é um sujeito vivido e grosso, do alto dos seus oitenta e poucos. Viu muita coisa, viu gente morrer de bala e virgindade ser leiloada em casa de tolerância, e vê safadeza em tudo. Felizmente viu os filhos vingarem homens bem sucedidos, graças a sua energia e à indispensável dedicação da santa mulher com quem casou.
Um primo falou que travestis deviam investir mais em cortar fora as trombinhas. O estudante, inteirado dos negócios, esclareceu que seria como acabar com o verdadeiro ganha-pão deles — e explicou por que. O patriarca suspirou. Então no fervor do álcool uma tia carola confessou seu espanto, pois não sabia que "esses travestis" (imagine um tom asqueroso) ganhavam tanto. O cirurgião corrigiu, explicou que quem pagava os implantes era o cafetão.
:: 26.12.2011 ::
Assinar:
Postagens (Atom)