O cortiço no fim da rua rendia histórias divertidas para animar as conversas da vizinhança. Eram algumas casinhas germinadas, improvisadas, e, nelas, gerações de famílias amontoavam-se em poucos cômodos. Difícil dizer se a criança era filho, irmão ou neto de alguém. Entre elas tinha o Leozinho, moleque grudento que era o terror quando entrava em casa para brincar. Falava demais, contava vantagem, fuçava em tudo... e a situação se agravou.
A mãe do Leozinho era uma gorda impetuosa, que visivelmente se impingia sensualidade. A ascensão da classe D (bolsa família, bolsa gás, defeso etc.) premiou-os com um aparelho de DVD. Ela então teve a grande ideia de passar filmes pornôs para o filho assistir, desde os dois anos. O pior é que alardeava entre os pares que “assim ele aprende e vira macho”.
Até o dia em que a turminha da rua (os do cortiço e os demais) se enfurnou numa garagem e resolveu brincar de médico ou coisa parecida, e o Leozinho tascou uma dentada no bingolim de outro moleque. De tirar sangue. Necessário explicar o que causou a dentada?
Do posto de saúde (foram só uns pontinhos e um trauma indelével) a mãe do "mordido" foi direto à delegacia dar queixa. A Justa acareou os envolvidos e achou por bem contemporizar.
Dias depois, tudo voltou ao normal na rua, menos as sessões de pornô, pois a mãe desnaturada tomou uma descompostura do delegado e o fato de a presença do Leozinho gerar certo alvoroço e passar a ser monitorada de perto pelas famílias.
:: 13.09.2012 ::
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
Alopatia no tratamento do alcoolismo - Caso 2
O OUTRO LADO DA MOEDA - Um camarada encontrou o Armando na Praça Santos Andrade e, como médico nenhum consegue evitar, partiu para uma consulta informal:
“Você sabe que eu só bebo em casa, né? Diminuí quase totalmente as botequeadas.”
“É, em casa a gente acaba até bebendo menos.”
“Não é bem o meu caso. Mas sabe que acho que peguei uma alergia à cerveja daqui? Deve ser coisa da água.”
“Como assim?”
“É eu tomar umas cervejas e me dá um vermelhão, me sinto mal, formiga tudo. Como se desse ressaca na hora. Fico ruim de despencar na cama.”
“Ah, isso é sensibilidade a álcool. Pode aparecer com a idade. Não tem nada a ver com bebida da região.”
“Que nada. Dia desses fui num futebol com os amigos num sítio perto de Joinville. Depois rolou churrasco, e aí você sabe. Tomei caipira, pinga, uma cervejinha... primeiro com certo receio, e como não deu nenhum ruim, entornei o caldo. A bebida daqui é que me faz mal.”
O Armando achou melhor o amigo descobrir sozinho o estratagema.
Registre-se que o namoro do Zé com o projeto de rádio patroa não vingou.
:: 15.08.2012 ::
“Você sabe que eu só bebo em casa, né? Diminuí quase totalmente as botequeadas.”
“É, em casa a gente acaba até bebendo menos.”
“Não é bem o meu caso. Mas sabe que acho que peguei uma alergia à cerveja daqui? Deve ser coisa da água.”
“Como assim?”
“É eu tomar umas cervejas e me dá um vermelhão, me sinto mal, formiga tudo. Como se desse ressaca na hora. Fico ruim de despencar na cama.”
“Ah, isso é sensibilidade a álcool. Pode aparecer com a idade. Não tem nada a ver com bebida da região.”
“Que nada. Dia desses fui num futebol com os amigos num sítio perto de Joinville. Depois rolou churrasco, e aí você sabe. Tomei caipira, pinga, uma cervejinha... primeiro com certo receio, e como não deu nenhum ruim, entornei o caldo. A bebida daqui é que me faz mal.”
O Armando achou melhor o amigo descobrir sozinho o estratagema.
Registre-se que o namoro do Zé com o projeto de rádio patroa não vingou.
:: 15.08.2012 ::
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segunda-feira, 20 de agosto de 2012
Alopatia no tratamento do alcoolismo - Caso 1
Terminada a visita periódica ao ginecologista, a paciente faz um pedido:
“O doutor pode me fazer uma receita de Sarcoton?”
“É para a senhora?”
“Não, não. É que meu marido anda exagerando na bebida. Vou colocar na comida dele.”
“Mas o tratamento do alcoolismo só funciona se o paciente tiver firme propósito de parar de beber.”
“Ele não quer parar, doutor. É teimoso feito uma porta e bebe até ficar como um porco.”
“Tudo bem, vou fazer a receita. Mas a senhora tome cuidado, que se ele descobre vai lhe cobrir de porrada.”
“O doutor pode me fazer uma receita de Sarcoton?”
“É para a senhora?”
“Não, não. É que meu marido anda exagerando na bebida. Vou colocar na comida dele.”
“Mas o tratamento do alcoolismo só funciona se o paciente tiver firme propósito de parar de beber.”
“Ele não quer parar, doutor. É teimoso feito uma porta e bebe até ficar como um porco.”
“Tudo bem, vou fazer a receita. Mas a senhora tome cuidado, que se ele descobre vai lhe cobrir de porrada.”
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quarta-feira, 15 de agosto de 2012
Alopatia no tratamento do alcoolismo
Lembra da época em que o Zé dividia uma república com o Armando, estudante de medicina? Um dia uma namoradinha do Zé perguntou para o Armando se ainda existia aquele medicamento Tiralcool enquanto olhava torto para o Zé entornando uns gorós excessivos no boteco.
Como o MCP também é cultura, o nome do medicamento mais comum hoje para tratar alcoolismo é Sarcoton. A bula diz: “Indicado como auxiliar no tratamento do alcoolismo crônico. Ele não é a cura para o alcoolismo; simplesmente fornece ao indivíduo um apoio ao seu desejo sincero de parar de beber. (...) A ingestão de álcool por indivíduos previamente tratados com Sarcoton (Dissulfiram), dá origem à sinais e sintomas acentuados, conhecidos como reação dissulfiram-álcool, caracterizados por: sensação de rosto quente, vermelhidão no rosto, dor de cabeça intensa, dificuldade de respirar, náusea, vômitos, suor, sede, fraqueza, vertigem, visão turva. O rubor facial é substituído por palidez, seguida de queda da pressão arterial.”
Como o MCP também é cultura, o nome do medicamento mais comum hoje para tratar alcoolismo é Sarcoton. A bula diz: “Indicado como auxiliar no tratamento do alcoolismo crônico. Ele não é a cura para o alcoolismo; simplesmente fornece ao indivíduo um apoio ao seu desejo sincero de parar de beber. (...) A ingestão de álcool por indivíduos previamente tratados com Sarcoton (Dissulfiram), dá origem à sinais e sintomas acentuados, conhecidos como reação dissulfiram-álcool, caracterizados por: sensação de rosto quente, vermelhidão no rosto, dor de cabeça intensa, dificuldade de respirar, náusea, vômitos, suor, sede, fraqueza, vertigem, visão turva. O rubor facial é substituído por palidez, seguida de queda da pressão arterial.”
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quinta-feira, 9 de agosto de 2012
Me puxa pela tripinha
Era dessas pessoas que verbalizam o que passa pela cabeça, seja o que for, com naturalidade e simplicidade. Não vou copiar aqui os erros de grafia porque aprendi na faculdade com o professor Tezza que isso é opressão social. O importante é o interlocutor entender. Passou o recado, fechou o processo.
O processo que eu queria fechar era sexual. A "tripinha" não. Ela se referia à lingueta do bate-papo de uma rede social. Eu me empenhava para colocá-la numa armadilha que envolve ingredientes de excitação e curiosidade. Dizem que infalível — menos com mulheres que buscam homens com carrões e/ou terninhos.
Em tom confessional tentei extrair um fiapo da libido dela. Funcionou. Contou que tempos atrás ficou de conversa com um cara. Na primeira vez que saíram ela fez sexo oral nele, rolou no carro mesmo. Nem foi em servcar (como se diz em Curitiba), mas numa rua escura e sem movimento. Ela sabia que ele estava com pressa porque tinha que se encontrar com a noiva. Pensei que alguma conservadora a recriminaria (o piegas "não faço com os outros o que não gostaria que fizessem comigo"). Isso nem passou na cabeça dela. "Sabe por que eu fiz? Eu queria mesmo era ser chupada. Mas, ali, no carro, não dava. Ou até daria, mas era complicado de se ajeitar e não tínhamos tempo. Eu não dava nem chupava fazia uns três meses. Vi que ele estava excitado. Ele queria se aproveitar de mim e eu dele, não somos mais crianças. Não ia desperdiçar uma ereção que era pra mim. Dei o gostinho pra ele e fiquei com o gostinho dele."
Depois confessou que nunca foi a um motel sozinha. A bares sim. Falei que essa fantasia do motel eu não teria condições de realizar. Ela achou engraçado e aceitou como se fosse um convite. Percebi que por baixo da simplicidade rústica havia uma mente arguta e cínica. Puxei pela tripinha.
terça-feira, 31 de julho de 2012
Pão que te partiu
Agora sim! Depois de testar as perversettes e leitores com um continho que já havia sido publicado, mandamos, a pedidos, um real inédito do Felipe Arriaga Carriço. Não contavam com nossa astúcia, hein? Percebam a nuance poético-perversa!
Por isso os lábios lambia.
E quanto mais lambia,
ainda mais fome sentia.
Mas não mordia,
pois lambia para matar a fome
e se mordesse não receberia
o "pão nosso de cada dia"
que a velha freira lhe oferecia.
terça-feira, 24 de julho de 2012
quinta-feira, 12 de julho de 2012
Jukebox
Eu tinha quatro anos quando minha mãe foi trabalhar na zona. Ela abriu uma lojinha de roupa de criança. Nesse novo habitat havia casas e bares repletos de moças bem dispostas e alegres. Elas adoravam os vestidos e camisetas vermelhas da vitrine.
Nordestinas, catarinenses e até umas moças das redondezas, sempre a mesma história: gravidez precoce, azar na vida e/ou trazidas por algum caminhoneiro que, com promessa de vida melhor em outro lugar, as tiravam da miséria e descarregavam ali na cidadezinha portuária.
No inicio os olhos tinham brilho, pele jovial e viçosa, carne nova como diziam. Frequentavam a loja, compravam os artigos mais caros, tinham motorista de táxi cativo e podiam até recusar convites dos ensacadores fedidos de suor e soja. Meses depois já estavam mais velhas uns cinco anos, corroídas por noites em claro, abortos, bebida e droga, carne passada. Nos olhos o brilho cedia lugar para o vazio. Ganhavam pouco por muito trabalho, passavam a escolher a roupa mais em conta e pagavam fiado.
Depois desse cenário, precisei de anos de terapia para aceitar que não sou brega. Mesmo assim, no bar, às vezes coloco uma moeda na jukebox e escolho uma música doída de amor perdido.
:: 15.06.2004 ::
Nordestinas, catarinenses e até umas moças das redondezas, sempre a mesma história: gravidez precoce, azar na vida e/ou trazidas por algum caminhoneiro que, com promessa de vida melhor em outro lugar, as tiravam da miséria e descarregavam ali na cidadezinha portuária.
No inicio os olhos tinham brilho, pele jovial e viçosa, carne nova como diziam. Frequentavam a loja, compravam os artigos mais caros, tinham motorista de táxi cativo e podiam até recusar convites dos ensacadores fedidos de suor e soja. Meses depois já estavam mais velhas uns cinco anos, corroídas por noites em claro, abortos, bebida e droga, carne passada. Nos olhos o brilho cedia lugar para o vazio. Ganhavam pouco por muito trabalho, passavam a escolher a roupa mais em conta e pagavam fiado.
Depois desse cenário, precisei de anos de terapia para aceitar que não sou brega. Mesmo assim, no bar, às vezes coloco uma moeda na jukebox e escolho uma música doída de amor perdido.
:: 15.06.2004 ::
quinta-feira, 14 de junho de 2012
Tem castigo que sai pela culatra
Faltava um pouco de produção e sobravam uns quilinhos, mas tinha uma boca linda e era bastante sensual. Devido aos diversos complicadores de mulher casada, ela acabou dando um cano feio no Zé logo no primeiro encontro. Ele ficou puto e disse que quando se encontrassem iria rolar castigo. Ela assumiu uma posição bastante submissa, o que agradou o rapaz.
Quando deu certo o encontro, ela pegou o Zé de carro e foram a um serv-car. Sem qualquer preliminar nosso amigo botou para fora e mandou fazer o serviço. Ela obedeceu. No embalo, o Zé subiu-lhe a saia mas encontrou uma calcinha grande meio broxante, que ao ser afastada, em compensação, revelou que era 100% depilada, coisa que ele não tinha visto ao vivo até então — fora as amiguinhas nas brincadeiras de médico lá na infância, mas é outra perspectiva.
O Zé já estava se animando em acariciar a moça, mas lembrou que tinha um castigo a aplicar. Colocou-a de quatro sobre os bancos reclinados, ficou por trás dela meio desajeitado sob o teto do carro e encaixou com força, sem preliminares e sem piedade, no buraquinho de trás. Ela gritou, mas suportou. Era o castigo prometido. Então deu continuidade, e percebendo que ela estava com dor, o Zé ficou com pena e falou em parar. Ela implorou para continuar.
:: 21.01.2009 ::
Quando deu certo o encontro, ela pegou o Zé de carro e foram a um serv-car. Sem qualquer preliminar nosso amigo botou para fora e mandou fazer o serviço. Ela obedeceu. No embalo, o Zé subiu-lhe a saia mas encontrou uma calcinha grande meio broxante, que ao ser afastada, em compensação, revelou que era 100% depilada, coisa que ele não tinha visto ao vivo até então — fora as amiguinhas nas brincadeiras de médico lá na infância, mas é outra perspectiva.
O Zé já estava se animando em acariciar a moça, mas lembrou que tinha um castigo a aplicar. Colocou-a de quatro sobre os bancos reclinados, ficou por trás dela meio desajeitado sob o teto do carro e encaixou com força, sem preliminares e sem piedade, no buraquinho de trás. Ela gritou, mas suportou. Era o castigo prometido. Então deu continuidade, e percebendo que ela estava com dor, o Zé ficou com pena e falou em parar. Ela implorou para continuar.
:: 21.01.2009 ::
segunda-feira, 11 de junho de 2012
MCP documento: GUEIXAS
Iniciamos uma nova série/marcador no MCP. Mais voltada para cultura e documentário. Título e o marcador são autoexplicativos. Serão alguns textos guardados, coisas que você não encontra por aí. Aceitamos sugestões e pedidos.
O universo das gueixas confunde-se com o universo das artes -- seja a arte do canto, da dança, da conversa ou da sedução; a própria palavra "gueixa", aliás, pode ser traduzida como "pessoa que vive da arte"
A imagem dessas mulheres, maquiadas de branco e vestidas em belos quimonos, sempre fascinou o Ocidente. E exemplos desse deslumbramento não faltam, tanto no cinema como na literatura: um dos projetos de Steven Spielberg é transformar em filme "Memórias de uma Gueixa", livro do também norte-americano Arthur Golden. [n. b.: lembramos do filme Memórias de uma gueixa, EUA, 2005]
Mas essa visão cheia de glamour não ajuda a revelar quem realmente são e o que fazem as gueixas. Fora do Japão é comum que elas sejam vistas como prostitutas de luxo, equívoco que explica ao mesmo tempo o preconceito e o romantismo que as cercam.
Ao contrário do que muitos imaginam, um cliente que paga pelos serviços de uma gueixa muitas vezes não recebe sexo em troca. E quando isso acontece, é uma decisão que cabe quase sempre à própria gueixa. Hoje, a maior parte desses clientes são homens mais velhos, que sabem apreciar as artes tradicionais do Japão (que incluem canto e dança), além do jogo teatral que envolve esse universo. "As gueixas são como atrizes", diz a escritora e editora britânica Lucy Moss, que viveu no Japão entre 1994 e 1999. "Elas vendem aos seus clientes o sonho de uma mulher perfeita, e fazem com que eles se sintam atraentes e importantes".
Para se tornar uma gueixa, são necessários vários anos de um rigoroso aprendizado que começa na adolescência, geralmente entre 13 e 15 anos -- antigamente, esse treinamento se iniciava já na infância. Até a 2ª Guerra Mundial, não era raro que as famílias pobres do Japão vendessem suas filhas para prostíbulos, para reduzir o número de bocas a alimentar em meio à miséria em que viviam. Mas se essas meninas fossem consideradas bonitas ou inteligentes, poderiam ter a chance de se tornarem gueixas.
"Elas são fundamentais na história cultural do Japão", afirma Lucy Moss. "As gueixas mantêm vivas as artes tradicionais do país, que não existem mais no dia-a-dia", concorda a socióloga japonesa Miho Naganuma, que trabalha no Museu de Imigração Japonesa de São Paulo.
Entretenimento para a elite - Conhecer uma gueixa, porém, é privilégio para poucos. Em geral, seus clientes são formados por grandes empresários, políticos de peso, membros da Yakuza (a máfia japonesa) e artistas famosos. E não basta ter muito dinheiro; para entrar nesse círculo seleto, é preciso ser apresentado por outro cliente mais antigo. "As gueixas oferecem entretenimento e arte para a elite japonesa.
Quando presidentes e diretores de grandes corporações desejam receber bem seus convidados, seus parceiros de negócios, é comum levá-los às casas de chá (ocha-ya)", conta Luiz Massahiro Hanada, ex-secretário-geral da Aliança Cultural Brasil-Japão.
Mas esse universo, que ainda hoje é cercado de mistério, pode estar em extinção. No início do século, havia cerca de 80 mil gueixas no Japão. Hoje, estima-se que sejam apenas dois mil. Ironicamente, a influência do Ocidente (que tanto fascínio tem pelas gueixas) é apontada como uma das causas do crescente desinteresse dos japoneses pelas suas antigas tradições.
Fonte: www.nihonsite.com / Autor: Ricardo Koiti Koshimizu (jornalista)
O universo das gueixas confunde-se com o universo das artes -- seja a arte do canto, da dança, da conversa ou da sedução; a própria palavra "gueixa", aliás, pode ser traduzida como "pessoa que vive da arte"
A imagem dessas mulheres, maquiadas de branco e vestidas em belos quimonos, sempre fascinou o Ocidente. E exemplos desse deslumbramento não faltam, tanto no cinema como na literatura: um dos projetos de Steven Spielberg é transformar em filme "Memórias de uma Gueixa", livro do também norte-americano Arthur Golden. [n. b.: lembramos do filme Memórias de uma gueixa, EUA, 2005]
Mas essa visão cheia de glamour não ajuda a revelar quem realmente são e o que fazem as gueixas. Fora do Japão é comum que elas sejam vistas como prostitutas de luxo, equívoco que explica ao mesmo tempo o preconceito e o romantismo que as cercam.
Ao contrário do que muitos imaginam, um cliente que paga pelos serviços de uma gueixa muitas vezes não recebe sexo em troca. E quando isso acontece, é uma decisão que cabe quase sempre à própria gueixa. Hoje, a maior parte desses clientes são homens mais velhos, que sabem apreciar as artes tradicionais do Japão (que incluem canto e dança), além do jogo teatral que envolve esse universo. "As gueixas são como atrizes", diz a escritora e editora britânica Lucy Moss, que viveu no Japão entre 1994 e 1999. "Elas vendem aos seus clientes o sonho de uma mulher perfeita, e fazem com que eles se sintam atraentes e importantes".
Para se tornar uma gueixa, são necessários vários anos de um rigoroso aprendizado que começa na adolescência, geralmente entre 13 e 15 anos -- antigamente, esse treinamento se iniciava já na infância. Até a 2ª Guerra Mundial, não era raro que as famílias pobres do Japão vendessem suas filhas para prostíbulos, para reduzir o número de bocas a alimentar em meio à miséria em que viviam. Mas se essas meninas fossem consideradas bonitas ou inteligentes, poderiam ter a chance de se tornarem gueixas.
"Elas são fundamentais na história cultural do Japão", afirma Lucy Moss. "As gueixas mantêm vivas as artes tradicionais do país, que não existem mais no dia-a-dia", concorda a socióloga japonesa Miho Naganuma, que trabalha no Museu de Imigração Japonesa de São Paulo.
Entretenimento para a elite - Conhecer uma gueixa, porém, é privilégio para poucos. Em geral, seus clientes são formados por grandes empresários, políticos de peso, membros da Yakuza (a máfia japonesa) e artistas famosos. E não basta ter muito dinheiro; para entrar nesse círculo seleto, é preciso ser apresentado por outro cliente mais antigo. "As gueixas oferecem entretenimento e arte para a elite japonesa.
Quando presidentes e diretores de grandes corporações desejam receber bem seus convidados, seus parceiros de negócios, é comum levá-los às casas de chá (ocha-ya)", conta Luiz Massahiro Hanada, ex-secretário-geral da Aliança Cultural Brasil-Japão.
Mas esse universo, que ainda hoje é cercado de mistério, pode estar em extinção. No início do século, havia cerca de 80 mil gueixas no Japão. Hoje, estima-se que sejam apenas dois mil. Ironicamente, a influência do Ocidente (que tanto fascínio tem pelas gueixas) é apontada como uma das causas do crescente desinteresse dos japoneses pelas suas antigas tradições.
Fonte: www.nihonsite.com / Autor: Ricardo Koiti Koshimizu (jornalista)
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