Serviu-se de uma modesta porção de um qualquer-coisa-vegetal da qual mordiscou não mais que dois tomates-cereja, apenas para não parecer tão enfastiada e para confraternizar com os outros convidados - afinal de contas era o casamento da melhor amiga, fiel companheira de aventuras e dietas, e ela merecia aquela incontestável prova de consideração e renúncia. Por pouco não sucumbiu à tentação de cair de boca na musse de chocolate; foi salva pela sua habilidade com números, que lhe permitiu converter, em uma fração de segundos, o valor calórico da guloseima em quilogramas desconfortavelmente aboletados na cintura e nos quadris. Horripilante, mesmo enquanto hipótese. Afastou de si o tal cálice com o coração partido, é verdade, porém com o corpinho manequim 36 devidamente salvaguardado. Voltou para casa exausta, mas gloriosa. A noite fora sua, mais até do que da noiva, a amiga que lhe perdoasse o inegável e inevitável roubo das atenções.
Descalçou as sandálias de saltos altíssimos, espreguiçou os dedos dos pés, endireitou a coluna e atravessou a escuridão rumo à cozinha - relembrando com orgulho a deliciosa sensação de ter cada pedaço do seu corpo devorado pelos olhares masculinos, mordido, reverenciado quase religiosamente por aquela coletiva, íntima e testosterônica salivação - acendeu as luzes: os vestígios do lanchinho pré-casamento, engolido às pressas para evitar uma possível orgia gastronômica durante a festa, ainda estavam espalhados sobre a mesa. Dois pacotes de macarrão instantâneo, três fatias de pizza de calabresa com muito queijo, quatro bombons Sonho de Valsa, um Mac Tasty com coca-cola e um pote de Nutella. Tudo devidamente vomitado, óbvio, afinal era preciso caber sem sobras dentro do vestido tomara-que-caia. Arrumaria a bagunça depois. Precisava mesmo era amansar a fome despertada pelos tomates-cereja, maldita hora em que abrira mão da espartana disciplina alimentar para engolir aquilo.
Nem teria coragem de encarar a balança depois mas havia a fome, felicidade dava fome, vitória dava fome, tomates-cereja davam muita, muita fome. Além do mais, sempre havia o providencial expediente das dedadas na garganta para dar aquela consertadinha nos eventuais excessos. Deu de ombros e sorriu, feliz. Sentou-se no chão da cozinha, cruzou as pernas como uma criança e, triunfante, abriu a bolsa abarrotada de bem-casados (surrupiados com o máximo da elegância e discrição) e saboreou-os um a um, lambendo os dedos, em comemoração ao sucesso da sua aparição, repetindo para si mesma - enquanto se encaminhava ao banheiro já com o dedo em riste para concluir o ritual da noite - que ser diva, realmente, era coisa para poucas.



