quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Opala vermelho (parte 5)

Nem tudo é perfeito. Na noite seguinte minha namorada estava estranha, não consegui perceber por que. No sábado saiu cedo com o opala sem dizer onde ia. Esperei o dia todo. Nada. No domingo andei pela cidade atrás dela até encontrar o opala vermelho parado na frente de um bar. Ela estava lá dentro com o Vaguinho. Ao me ver tentou se esconder. Estava drogada.

Tive que peitar o marginal para poder levá-la comigo. Assim que começamos a rodar ela chorou muito. Confessou que havia encontrado uma buchinha de cocaína na roupa do michê, que não resistiu e guardou para usar depois. "Pra quê? Não tava tudo legal entre a gente?" Antes ela era viciada. A gente se conheceu quando ela estava se tratando para largar.

Dei-lhe um abraço, trazendo-a bem perto de mim. Falei que a gente superava aquilo. Ela se acomodou feito uma menininha no meu peito.
"Por que você foi atrás do Vaguinho? Queria mais droga?" perguntei.
"Também. E tenho que contar uma coisa para você" ela estava com aqueles olhos de quem está fora de controle, injetados e tristes. "Você me aceita como eu sou, certo?"
"Certo."
"Com todos os meus defeitos, né? E você sabe que te amo."
"Gosto de você assim, do jeito que você é, minha loira."
"Sabe aquele toca fitas, eu não comprei com dinheiro. Pedi pro Vaguinho arrumar um pra mim. É uma coisa que eu queria muito dar pra você e eu não tenho condições."
"Eu já sabia disso. Eu conheço você, e gosto de você assim."
"Mas o Vaguinho não faz nada de graça, eu tive que dar pra ele. Não foi bom. Foi ruim, sujo."

Minha garganta apertou, o coração começou a bater forte. É difícil escutar esse tipo de coisa assim, na lata. Parei o carro.
 
(continua)

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Opala vermelho (parte 4)

Passei quase uma semana sem ver minha namorada, mas não resisti. Nem mesmo o opala vermelho tinha graça sem ela. Comprei flores e passei na casa dela. Tinha esquecido que minha namorada havia se tornado loira. A mãe dela não estava. Melhor. Fizemos as pazes.

Tudo voltou a ser como antes. Fizemos uma viagem no aniversário de namoro. Fomos até o litoral catarinense: Itapema e Bombinhas. Meio de semana, praias inteiras quase exclusivamente nossas. Algumas noites dormimos em pousadas. Em outras, o opala serviu de abrigo. Eu gostava de ficar olhando para ela, que brincava feito criança nas ondas do mar.

Na volta, nos amávamos feito nunca. Sensações cada vez mais intensas. Teve um dia em que resolvemos lembrar as antigas aventuras e fomos incomodar os michês na praça Ozório. Era o máximo pra eles quando apareciam mulheres atrás de programa. Estavam acostumados com velhos fedidos. Pegamos um bem novinho, no máximo 16 anos. Minha namorada sabia para quê.

"A gente vai fazer no carro mesmo" ela disse. O garoto estava nas alturas. Paramos fora da cidade numa estradinha vicinal. A noite estava sem um pingo de luz. Ela desceu do opala, sentou no capô e abriu a camisa. O garoto foi pra cima. Assim que se aproximou para tocá-la ela o empurrou violentamente com o pé: "Primeiro tira a roupa!" O corpo dele chegava a ser feminino de tão frágil.

Desci do carro com o pretexto de observar a nudez do rapaz. Ele se aproximou da minha namorada, tocou nos seios dela. Dei-lhe um safanão que ele quase desmontou sobre o capô. E outro que o atirou ao chão. Ela juntou as roupas dele e correu para dentro do opala. Antes de entrar, observei o garoto encolhido na terra batida, tremendo de frio e medo. Arranquei erguendo poeira. Minha namorada gritava de alegria. Eu via a satisfação nos olhos dela enquanto revistava as roupas e fazia uma trouxa que jogamos num carrinho de catador de papel.

(continua)

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Opala vermelho (parte 3)

Resolvi apresentar minha namorada para minha mãe, que fez um jantar especial porque eu pedi. Ela apareceu com o cabelo pintado de loiro. Minha mãe estranhou, pois eu já havia descrito, e muito, a "amiga" que ia nos visitar. De certo modo, acho que ela fez aquilo para me atingir. Por outro lado, no jantar se comportou feito uma dama e isso me agradou muito.

Depois saímos de opala, ela dirigindo, e passamos um bom tempo zoando. Numa esquina havia dois rapazes bem vestidos que pediram carona. Ela parou e convidou para entrarem no carro. Não fui nem um pouco simpática e ela notou. Mas não deixou de se insinuar para os dois. Encostou o carro perto de um bar — o lugar para onde eles estavam indo. Um deles tentava ser legal comigo. Isso me desarmou. Nunca fui mal educada.

Minha namorada se aproveitou e sugeriu que trocássemos de lugar — até ali estávamos as duas no banco da frente. Aquilo me revoltou. Falei que não estava passando bem. Os rapazes ficaram no bar e nós fomos até um dos nossos lugares. Ela tentou se justificar, disse que só queria se divertir um pouco, sair da rotina. Eu estava furiosa, cheguei a bater nela. Eu perdia o controle quando sentia que ela tocava em mim como quem puxa um prepúcio. Naquela noite não houve mais carinho.

(continua)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Opala vermelho (parte 2)

Eu e minha namorava curtíamos a vida no meu opalão vermelho. Então um dia resolvi ensiná-la a dirigir. Ela sempre foi meio burrinha para pegar as coisas. Íamos no estacionamento do parque Barigui, que ficava vazio nos dias de semana. Um susto pra cá, uma morrida ali, aos poucos ela foi se adaptando. No dia que aprendeu pra valer a gente estourou uma champanhe e comemorou vendo o por do sol, num lugar secreto que só eu conhecia.

Minha namorada ficava linda dirigindo o opala. Tiramos várias fotos dentro e fora do carro, em cada lugar que a gente ia. No meu aniversário ela me deu um toca-fitas dos mais caros. Fiquei emburrada pra saber onde é que conseguiu dinheiro. Ela me disse que estava há tempos guardando, só para me comprar um presente legal. Era mentira mas eu fiz que acreditei. "Se a gente ama, tem que fechar um olho" minha mãezinha dizia. Na verdade ela deve ter pedido o toca-fitas para um ex-namorado dela, o Vaguinho. Ladrãozinho barato de carros. Com certeza ele não entregou o som de mão beijada. Provavelmente ela teve que dormir com ele. Tudo bem, certas coisas eu não posso dar a uma mulher.

(continua)

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Opala vermelho (parte 1)

A gente parecia inatingível quando rodava pela cidade no meu opalão vermelho. Era antigo, eu sei, a pintura estava opaca, mas ele dava uma sensação maravilhosa de poder. Eu e minha namorada. A gente roubava um extintor de algum prédio e saía pela cidade para descarregar numa pessoa qualquer. "Ei, moço! O senhor pode dizer onde é que fica a rua Francisco Torres?" No momento que o velho se abaixava para dar a informação, toooooooff nele! Ficava inteiro branco sem saber o que fazer. E eu arrancava meu opalão vermelho cantando pneu. A gente se matando de dar risada.

Eu e minha namorada, no opalão, éramos loucas de dar nó. Lembro que a gente pegava uma caixa de ovos na casa da mãe dela — a coroa me odiava! — e passava pela praça do Atlético tacando os ovos nas cabeças dos travestis. Eles corriam quadras atrás da gente. Eu, de propósito, andava mais devagar, só para eles acharem que podiam alcançar. Então eu arrancava com tudo. Ficavam com mais ódio ainda. Todo travesti odiava meu opala. Eu e minha namorada, nós o amávamos.

E nos amávamos dentro dele. Assim, na rua mesmo, tarde da noite. Sem medo de sermos pegas de surpresa. Conversávamos até o vidro embaçar inteiro, depois pulávamos para o banco de trás — no banco de trás era mais gostoso — ficávamos semi-nuas e fazíamos de tudo. Ali era o nosso cantinho, onde ninguém nos incomodava. Nada de ir a lugares muito retirados como os parques. Nestes a polícia ficava à espreita dos casais imprudentes. Eu parava perto do centro, em ruas mais calmas. Ah, como era bom ela correndo o indicador pela alça do meu sutiã, descendo, enfiando o dedo entre o tecido e a pele, tocando no bico do meu seio.

(continua)

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

MCPmate - CK

A leitora que nos premiou com essa foto enigmática (e não menos deliciosa) pediu para ficar incógnita. Mas vocês podem tentar adivinhar quem é.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Onze da manhã num hotel barato

Não pense que tenho vergonha de ter morado no bairro da zona. O único problema era a marcação cerrada da família. Eu quase não podia sair do quintal. Meus irmãos fugiam, mas nunca me levavam junto. Meu pai me fechava dentro de casa e colocava talco no chão. Se eu escapasse, deixava pegadas e apanhava feio.

Depois me mandaram para um colégio interno caríssimo. Meu pai estava errado. Qualquer menina filha de puta do nosso bairro era mais comportada que as meninas da escola particular. Um dia deixei vazar em casa as coisas que eu via por lá, foi um escândalo.

Voltei a estudar na cidade e um dia aconteceu o que a família temia. Só não caí em desgraça porque não contei a ninguém. Foi um cara mais velho que ficava na porta de um hotel barato no meu caminho da escola. Sempre, quando eu voltava pra casa, ele me convidava para entrar. Eu podia mudar o caminho, mas alguma coisa me impelia a passar por ali. Um dia não tive aula depois do recreio e decidi matar a curiosidade. Aceitei o convite.

:: 29.10.2004 ::

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Mania difícil de perder 2

Um interessantíssimo outro ponto de vista, um conto de f(r)icção dela.

Minha linhagem paterna é muito bonita. Olhos marcantes, nariz pequeno e bem talhadinho, boca generosa.

Lembro quando um primo de meu pai -- que estava estudando para ser santo -- foi nos visitar. Eu estava na flor da idade, peitinhos começando a despontar, cinturinha ainda de criança, bunda já de mulher. Meus hormônios estavam agitados e provocar me excitava. Cidade quente, sabem como é, vesti meu shortdoll minúsculo de pano bem levezinho e desci para cumprimentar o futuro padre.

Minha mãe quase enfartou. As sombras de meus mamilos, duros, podiam ser vistas pela transparência, pareciam querer rasgar o pijaminha e sair. Ela estava com os lençóis e toalhas na mão, indo arrumar o quarto onde ele passaria a noite, e jogou-os contra meu corpo. Entendi no seu olhar “segure-os para se tampar um pouco e tome seu rumo antes que eu o faça por você”. Olhei maliciosa para o primo e subi as escadas rebolando inocente, segurando as roupas de cama, na frente. Minha mãe subiu correndo atrás para evitar que ele visse muita coisa, e na subida lascou um tapa na minha bunda, que ressoou.

Hoje ele é um padre famoso, faz palestras, shows e gravou CDs. Foi em programa de televisão e tudo mais. Confessou a uma apresentadora sensacionalista que a única provação que quase o fez desistir da vida eclesiástica foi uma priminha torta saliente que até hoje povoa seus sonhos.

Já saí da casa dos meus pais, moro sozinha. Chamei-o para benzer minha morada e tratar o demônio que habita meu corpo. Cair em tentação, pode. Uns tapinhas para me purificar também. Mas desistir de tudo por mim, não, obrigada, não tenho vocação para cuidar de marmanjo desgarrado. "Afinal, pecado é todo mal consciente, seja do clero ou do pagão."

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Mania difícil de perder

A mãe jogou fora toda a coleção de cedês do Padre Marcelo e daquele outro padre cantor, o Fábio de Melo. Este, por sinal, tem uma cara de porteiro de boate que eu nunca vi. Vejo uma mensagem contraditória naquele olhar pseudo-sexy.

Resolveu abandonar a religião em que foi criada depois de sentir o impulso de se masturbar vendo as fotos das capinhas. Jogou tudo fora e imputou a culpa no Vaticano.

Dias depois a filha comprou uma casa nova onde colocou a mãe para morar. Dizia que a casa era da mãe, não por bondade: a gratidão extrema teria o propósito de limitar os impulsos controladores maternais. "Para comemorar, faz uma foto sua nuazinha no sofá da sala nova e me manda", pedi. À filha.

Dia seguinte abri ansioso a caixa postal, mas nada de foto. Ela me ligou: "Ontem eu não fiz aquela parada que você pediu. Acredita que foi um pastor da Igreja Universal lá em casa? Minha mãe que chamou."
Não me contive e soltei uma gargalhada: "Então você converteu o pastor para o caminho do satanás?"
"Não. E nem esperei ele tentar me converter. Eu saí."
"Sua mãe acha que você está possuída?"
"Até que não. Ela chamou o cara para benzer a casa nova."

Fiquei pensando qual seria a água benta da Igreja Universal.

:: 12.08.2011 ::

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Casamenteira

O Zé começou a namorar a Clara, filha do padeiro. Todo mundo avisou que ela era doida para casar, mesmo assim ele arriscou. Depois de investir bastante, acabou levando a moça para o sofá da casa dela numa tarde de sábado em que a família cuidava da padaria. Até que foi fácil partir para o "acasalamento", ela não botou objeção.

Nos finalmentes, o Zé lembrou da advertência dos amigos e gozou fora (essa história é da época em que não era forçoso usar camisinha). Foi tudo para o encosto do sofá. A Clara começou a chorar e passar a mão na mancha. Ele ficou comovido e disse para não ficar preocupada, que era só esfregar pano úmido que a mancha sumia. Ela olhou para ele ainda chorando, passando a mão da mancha para "as partes", e disse: Mas eu queria esse filho... Eu queria esse filho!

:: 29.07.2004 ::