terça-feira, 5 de março de 2013

Investida com arte

A vida é muito curta para deixar de fazer o que se gosta, ou fingir ser o que não é, somente pela imagem que achamos que vão fazer da gente. Foi o que a convenceu a sair comigo. Pois quem vê de fora pode recriminar uma mulher que sai comigo.

Por exigência dela fomos para um lugar discreto. Lá dentro, bem, conheço um pouco da arte da sedução, o que me garantiu o que eu realmente queria. A consciência dela pode ter até tentado repelir minhas investidas, mas não teve jeito: ela deu.

Depois do ato levantei e fui ao banheiro. Grandes olhos brilhantes me acompanharam até eu fechar a porta. Essa história de mulher querer carinho depois é porque não gozou. Logo pedi para ela me levar ao boteco. Esperei que ela se convidasse para me acompanhar, mas ela não ousou. Fiquei na companhia da cerveja e voltei para casa sozinho. Naquela noite eu não precisei sonhar.

:: 07.07.2003 ::

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

O Zé e a rainha do sertanejo universitário - parte 2

Tudo se encaminhou bem com a loirona bonita que abordou o Zé no sinaleiro por causa da moto do primo. Depois de alguns dias de negociação bem quente, já no quarto do motel, ele percebeu certos não-me-toques na moça, mas no calor do momento a coisa engrenou, e no meio do griteiro que ela promoveu (teatral ou não, pouco importa, pois reparar nisso é coisa de boiola) tirou a camisinha e "descarregou" na barriga dela, que imediatamente engatou ânsias de vômito.

Isso mesmo. A superloira com pinta de biscate não tinha estômago para uns jatinhos de esperma na barriga. Num reflexo o Zé catou a toalha e limpou rapidinho, pensando ainda bem que foi na barriga, imagina o estrago se levasse em conta toda baixaria que ela falava e mirasse na cara!

Naquele dia o Zé aprendeu na raça, e depois compartilhou com os amigos no boteco, que quando o assunto é a dança mais antiga da humanidade não é só homem que conta vantagem.

:: 29.03.2010 ::

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O Zé e a rainha do sertanejo universitário - parte 1

O Zé emprestou a moto esportiva do primo e foi dar umas bandas no bairro. Até pode ter sido coincidência, mas nunca uma mulher o havia abordado na rua assim, na cara dura. Pois naquele dia uma loira linda emoldurada por um paliozinho preto pisou fundo até alcançar nosso amigo no sinaleiro. E deu um cartão de visitas pra ele.

Como de bobo o Zé não tem nada, quando telefonou (a ousada era gerente de alguma coisa num hotel de luxo) não entrou em detalhes sobre a propriedade da moto ou outras deficiências financeiras. E como a moça era comprometida, ele apertou a conversa pra um encontro direto, desses com final feliz pré-combinado.

Era uma loira bonita e carnuda, que chegou no encontro num vestido pelo menos três números menor que o figurino recomendado para moças de família. Se dizia rainha de um baile do sertanejo universitário, e pela insinuação, prometia uma trepada homérica, dessas que quando começa o treme-treme o peão se sente num terremoto 6.3 na escala richter.

(continua)

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Traído pela memória

Como era o nome daquela empregada que tinha na sua casa, uma preta retinta robusta que veio de Pato Branco com a sua família e fazia suco de laranja e batata frita toda vez que você pedia? Aquela que emprestou dinheiro para você comprar remédio quando pegou clamídia lá no puteiro da Sapataria São Sebastião receitado pelo pai daquele nosso colega do Colégio Positivo... Cara, daquela vez você se safou, hein? Mas como era mesmo o nome dela? Começava com a letra D, e na hora que eu lembrar isso aqui perde todo sentido. Será que está viva ainda?

:: 09.02.2013 ::

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Aquilo que não posso ter...

A cidade era pequena que Sandra quase não cabia nela. Espírita dissimulada, dona de casa de formas esculturais domadas por Leonel, evangélico convertedor, cabo da PM, ciumento. Só deixava a mulher sair aos domingos comportada na grupa da Barra Forte, Novo Testamento embaixo do braço. Comportada exceto pelo vestido vermelho que era a única coisa de que não abria mão. O vermelho e o salto alto eram como um ruído na igrejinha pentecostal que frequentavam. Depois do culto passeavam apaixonados pela praça.

Num passeio típico desses entraram no açougue e algo estremeceu dentro dela, caiu numa espécie de transe. “Pode ser a Pomba Gira”, disseram. “Também ela vive de vermelho, junta isso com cheiro de carne, é encosto certo.” A cidade ficou comovida com o acontecido.

Um mês passou e estranhamente tudo se arrumou. Sandra voltou ao seu jeito vivaz de ser. Dias depois a tragédia. Numa manhã calorenta foram encontrados os corpos do açougueiro e de Sandra no motelzito da beira estrada. Nus, unidos e amparados por uma faixa vermelha, salpicados de cachaça e penas pretas. Uma vela introduzida na disjuntora, um charuto introduzido no varão. Como Leonel estava na capital, o pastor foi o primeiro a chegar.

:: 23.01.2013 ::

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Ilibada

Trabalho como acompanhante. Acompanhante  mesmo, nunca me prostituí. Para você entender melhor, na casa onde trabalho somos como recepcionistas, os clientes pagam só pela companhia, para conversar, e também recebo comissão pelas bebidas que eles consomem. Você não imagina o mundo de solitários que tem por aí. Também ganho presentes caros por causa da minha simpatia, já ganhei até um carro usado. Mas como eu disse, sempre me comportei.

O fato de eu trabalhar com isso nunca incomodou meu marido, pra você ver. A ideia é que a relação com os clientes fique só na fantasia, mas desde que conheci você tenho me saído uma safada. Vivo imaginando uma traição no estilo dois deles me possuindo ao mesmo tempo. Antes, quando um cliente tocava em mim eu fazia cara feia e me afastava. Hoje abro as pernas. Até no ginecologista vou depilada, imagino que ele vai gostar de olhar. Foi você que fez esse buraco na minha moral.

:: 13.06.2003 ::

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Mulheres lindas também cagam

Fui ao cinema mas quase dormi, entediada, queria outra coisa. Falo do meu desejo, ando com a libido à flor da pele. Em público tento capturar algum olhar que procure o mesmo que o meu, mas o mundo parece que está em coma.

Talvez eu ainda não saiba como fazer. Como se meus olhos estivessem embaçados por um filtro do instagram. Queria fazer como as putas de antigamente, que cravavam os cotovelos na janela aplicando “o olhar” aos passantes. Escolhiam, atraíam, em segundos.

Sinto calor, sinto fome, mas nada se compara ao tesão. Recebo propostas dos apaixonados que dispenso, dos amigos que evito, dos homens das amigas (estes, desejo; autossabotagem?). Minúcias diferenciam, no fio da navalha, quem é para eu ser: amiga ou amante ou namorada.

Tão perfeita, linda e completa, uma mulher do mundo. Fui condenada a não ser de ninguém. Enquanto na essência toda mulher quer um homem, um dono, um objeto da paixão... o verbo amar não conjugo nem para mim.

:: 30.11.2012 :: 

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Os fins justificam

Ouvi hoje o caso de uma moça que saiu com um médico respeitado na cidade. Jantaram chique e depois foram na casa dele tomar um vinhozinho. Mal chegaram e o doido saiu correndo atrás dela com a calça arriada. Ela fugiu circulando em torno da mesa, se assustou e correu do lugar esbaforida antes que ele a pegasse. O tipo que exagera na bebida e perde o controle. Dias depois, saiu com ele de novo, afinal ele é médico.

:: 19.11.2012 :: Historinha contada pela diva Helô Gellhorn

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Confissão avessa

Vocês podem achar estranho ou até duvidar, mas teve uma época que resolvi sair por aí pelas ruas salvando pessoas. E o que me afastou dessa lida de super-herói é que inúmeras vezes os que estavam sendo salvos é que me afastavam. Sem querer eu causava ojeriza neles. Descobri que na essência o ser humano quer se salvar sozinho. Aqueles autônomos, que pensam, claro.

Larguei a capa e a máscara e fui cuidar da minha libido, que dói bem mais em mim que a dor do mundo.

:: 05.11.2012 ::

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Então ela se apropriou de mim

Orgia, hoje és minha inimiga
Os sofrimentos me obrigam
A me afastar de você
Adeus, violão, amigo leal
Estes versos que eu fiz
Devem ser a rima final
(Angenor de Oliveira, o Cartola)

Era uma vez uma velha. A velha mania que eu tinha de esquecer de disfarçar nos momentos em que esconder a embriaguez é questão de sobrevivência. O dia estava claro quando saí do bar aos fundos da Praça do Homem Nu, para ser mais exato, quando me expulsaram de lá. Ficou evidente que tinha acabado meu dinheiro, e o Laércio, que fechava o turno da noite, aprendeu a me cobrar adiantado nessas horas. Torcia para que ele morresse atropelado e colocassem outro, inexperiente, no lugar.

Convenci o motorista do ônibus parado no ponto inicial que eu tinha sido assaltado. Entrei pela porta de trás. Não ia aguentar andar até em casa, o sol começava a atravessar a espessa neblina do amanhecer ensolarado do inverno curitibano. Deus, como faz falta óculos escuros nessas horas.

Desci no Terminal de Santa Felicidade, mas já na passagem vi a filial da “Igreja Global da Monarquia de Deus” que tem ao lado. Os malditos escolhem bem onde colocar os templos. Desci e fui direto à igreja. Estranhei o ambiente espartano e frio. Havia algumas pessoas por ali. Dirigi-me a um homem de terno que conversava com algumas mulheres perto do púlpito, imaginei serem fiéis. Interrompi a conversa: "Com quem eu faço um orçamento para tirar o diabo do meu corpo?"

As mulheres me olharam aterrorizadas, mas senti benevolência no engravatado. Seria o pastor? Seria mesmo ele um homem santo?

Digamos que eu não estava com o melhor dos semblantes, completava quase vinte e quatro horas bebendo, sem banho e quase sem comer. As mulheres se afastaram e ele se apresentou como pastor Jamir e explicou que era um cristão evangélico neopentecostal, que as pessoas não eram obrigadas a fazer contribuições, que faziam de boa vontade porque sempre recebiam de volta em graças. Explicou também que o dia do desencosto era nas quartas.

Perguntei se eles não precisavam de um músico para animar as missas. “Porque todo meu dinheiro foi roubado. Pelo diabo.” Não era exatamente uma mentira.

O pastor Jamir esclareceu que já havia obreiros suficientes naquele templo, mas que novos fiéis como eu seriam sempre bem-vindos. Segundo ele, bastava eu frequentar os cultos que as coisas iriam melhorar.

Fui para casa e pensei muito, até a ressaca passar. E chorei. Em casa só havia pão. O pão que o diabo amassou. Comi com azeite e chá. Dormi cerca de quinze horas. Acordei no dia seguinte, peguei meu violão Takamine e caminhei até a região do Cefet. Lá empenhei meu nobre companheiro de boemia pela metade do preço que valia. Peguei um táxi até o templo do pastor Jamir.

Entrei na igreja, estava com metade das cadeiras ocupadas — ou vazias, depende do ponto de vista. As pessoas cantavam em euforia, devia ser o ponto alto do culto. Os músicos eram da pior categoria. Música precisa de sentimento autêntico. Sentei isolado perto da porta e observei. Nada daquilo me compelia a participar.

Da mesma maneira, na mesma postura incrédula, assisti a diversos cultos, dias a fio. Para ser mais preciso, assisti a exatos 32 cultos. Sempre conduzidos pelo pastor Jamir.

No 33º, terminado o culto, permaneci em meu lugar até todos levantarem, falarem entre si e com o pastor, até todos irem embora, inclusive os músicos. O pastor percebeu minha presença. Aliás, percebia desde que comecei a frequentar a igreja. Ficamos no templo só ele e eu. Ele no altar, eu na cadeira afastada. Começamos a nos encarar. Alguém teria que ceder.

Acho que o homem se identificava tanto comigo que não aguentou e veio em minha direção: "Ainda quer tirar o diabo do corpo?"

"Quero, mas quero pagar pelo feito. Não preciso de ligação espiritual com esta fábrica de extorquir dinheiro de gente humilde. Quanto custa?"

"Me vejo muito em você, já fui assim, rebelde. Às vezes tenho dúvida se os demônios me abandonaram, se sou mesmo abençoado. Só que para fazer o que faço aqui, todo dia, eu tenho que fazer força para acreditar, senão enlouqueço. Ou me matam", falou com muita seriedade ao se dirigir à porta e trancar por dentro.

Será que ele percebeu por baixo da minha barba nossa impressionante semelhança física? Foi isso que quis dizer com "Me vejo muito em você"? O fato é que o pastor Jamir sentou ao meu lado e despejou confissões, do passado, do presente, do homossexualismo contido. Colocou a mão em minha perna e me olhou pela primeira vez sem complacência. Era um olhar pederasta.

Não foi o olhar que me impeliu ao gesto violento. Eu só pensei que não poderia haver sangue nem barulho que chamasse a atenção, e pensei no zoológico humano que tudo aquilo representava. Foi o golpe certeiro de uma besta canina direto no pescoço. Ele não esboçou reação, e antes que tentasse recobrar os sentidos estrangulei, com muita força, uma força que eu não sabia que tinha. Apertei até sentir a cartilagem estilhaçando entre meus dedos.

Passados meses, lembro daquilo que ouvi repetidamente na escola, na minha família, das minhas mulheres. Sempre disseram que destruo aquilo que não posso ter. Ora, essa impressão que tinham de mim tem a ver simplesmente com meu jeito de viver com autenticidade. Desta vez fiz o contrário. Acrescentei um elemento novo à minha existência: a vida dupla.

Continuo passando diariamente pelo Terminal de Santa Felicidade, mas agora num carro confortável. Vivo de cara limpa (estou falando da barba, do cabelo, das roupas) numa casa confortável. Só mantenho alugado o moquifo em que eu vivia antes por precaução. Tenho acima de tudo minha horda de seguidores, e com eles levo a um nível epifânico a hipocrisia. Minha igreja particular. Não preciso dos bares, tenho um muito bem abastecido na minha sala, onde me sacio diariamente, diletantemente. Não quero saber de conversa pseudofilosófica de fim de noite. Abri mão do desejo vicioso em prostitutas, já que posso selecionar a dedo as fiéis que levo para minha casa, e levo muitas, solteiras, viúvas, casadas, e com elas devo ter procriado de um jeito que nem imagino, pois bacantes crentes não se atrevem a intimidar um homem santo.

Quem diria que eu jamais abriria mão do meu romantismo destrutivo? Hoje sou um homem santo. Eu só fiz abandonar minha identidade.

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Não, não se trata de um MCP, mas de um conto dos grandes que inscrevemos de última hora, neste 2012, no V Concurso Servir com Arte. Recebemos nesta data a seguinte mensagem: "A Secretaria de Administração e da Previdência através da Escola de Governo e da Comissão Organizadora do V Concurso Servir com Arte 2012 tem a satisfação de lhe comunicar sua premiação na categoria Conto com Menção Honrosa ENTÃO ELA SE APROPRIOU DE MIM. O evento de premiação será realizado dia 29 de Novembro às 19:00h na Biblioteca Pública. Parabéns!" Será que polemizamos demais pra levar o ouro?