quarta-feira, 16 de abril de 2014

Nossa entrevista no blog Déa e o Mundo

A Déa usou da influência que ela tem sobre mim pra me tirar as tripas numa entrevista. Leia aqui

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

A história do pai que levou o filho brincar de Superomem

O povo diz levou o moleque junto pra destruir de vez a mãe, a porrada final. Um ato de egoísnmo extremo. Penso diferente. Foi um tremendo ato de caridade. Ele poupou o moleque de passar o resto da vida à sombra do monstro que era o pai. Ou pior: de se tornar um monstro igual.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Tudo pode terminar bem

A luz matinal me acordou e tive a sensação de uma lâmina atravessada na cabeça. Como percebi o sol que entrava muito forte e alto, estremeci por achar que estivesse atrasado. Então lembrei da grande festa de ontem, que era sábado.

Virei para espreguiçar tranquilo e percebi que não estava sozinho. Sensação sempre desconfortável. Quem será? Por que será?

Abri os olhos com dificuldade e me virei tenso como quem não lembra como terminou a noite. A luz incidia sobre ela valorizando cada traço delicado do rosto. Ela abriu os olhos meio borrados e sorriu. Como alguém pode acordar linda desse jeito?

Segundo momento de desconforto nem um pouco amenizado pela dor e pressão na cabeça. Qual o nome dela? O que fizemos juntos noite a dentro? Mexi o corpo no lençol, percebi que estava nu. E ela? Me abraçou como quem estava ali não porque me queria, nem como quem queria alguma coisa de mim, abraçou simplesmente por estar feliz: “Bom dia, lindo!”

Cabelos longos e alinhados, pele macia, olhos brilhantes, calcinha pequena de algodão, os seios apontados roçando meu peito. Sensações agradáveis que me fizeram esquecer um pouco a ressaca. Admirei aquele momento como quem, perdido em dívidas, sorve um objeto do desejo inalcançável. Eu tinha dúvidas, e algumas dívidas, mas que deixaram de importar.

:: 08.01.2014 ::

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Nunca aconteceu comigo (versão para o leitor comum)

O Zé conheceu a eleita na noite de sexta, barzão escuro, todo mundo excessivamente biritado. Acordou no apartamento dela, se despediu todo romântico na cama. Não lembrava bem como rolou, mas sabia que tinha rolado.

Trocaram mensagens no decorrer da manhã, combinaram de almoçar. Antes de sair tomou banho, se perfumou e me ligou para pagar um sapo: Não quis sair ontem, né, bunda mole. Fui no Birinights e conheci uma gata meio gótica. Fodemos a noite toda. Agora vou almoçar com ela. Vai ser uma feijuca romântica.

Eu estava enrolado mesmo. E nunca fui fã da fauna daquele boteco.

Quando o telefone tocou de novo antes de eu terminar minha sobremesa de sábado (sagrada), pensei que seria o Zé reforçando a esculhambada. Era ele sim: Cara do céu, passei na casa da menina. Quando abriu a porta achei que era alguém que morava com ela. Cheguei a perguntar por ela. Aliás, não tinha nada de menina, nem de gata. Eu devia estar ainda bem bêbado quando acordei. Imagina meu estado no boteco...  E como desconversar depois de umas cinquenta mensagens românticas e de combinar o almoço? Fiz o que você ensinou. Corri para o banheiro, forcei uma vomitada e disse que ia para o posto de saúde.

:: 08.01.2014 :: Isso de "versão" está melhor explicado aqui.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Nunca aconteceu comigo (versão para leitores experts em minicontos)

Este é o conto cafa prometido no Facebook. Vamos publicá-lo em duas versões para vocês darem seus pareceres. Esta primeira, mais radical, enxuta, voltada a leitores acostumados a minicontos. A segunda, convencional. Queremos a opinião de vocês sobre as diferenças e a viabilidade desta versão.

Ligação 1- Não quis sair ontem, né, bunda mole. Fui no Birinights e conheci uma gata meio gótica. Fodemos a noite toda. Fui embora de manhã. Agora vou almoçar com ela. Vai ser uma feijuca romântica.

Ligação 2 - Cara do céu, passei na casa da menina. Quando abriu a porta achei que era alguém que morava com ela. Cheguei a perguntar por ela. Aliás, não tinha nada de menina, nem de gata. Eu devia estar ainda bem bêbado quando acordei e me despedi. Imagina meu estado no boteco... E como desconversar depois de umas cinquenta mensagens românticas e de combinar o almoço? Fiz o que você ensinou. Corri para o banheiro, forcei uma vomitada e disse que ia para o posto de saúde.

:: 08.01.2014 ::

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O natal “emochocrível” de Salete

Salete era consumista, e para azar do namorido dela, ganhava pouco. Mas isso não era problema para ele, homem rico. E casado. Não com Salete.

Era perto do fim do ano quando a salafrária topou fazer uma festinha com o namorido e uma amiga. Ganhou um presentão de Natal. Ele a levou numa concessionária e deixou que escolhesse: “Gosto de carro pequeno, que cabe em qualquer buraquinho. Quem tem que ter traseira grande sou eu”. E uns baitas airbags tinha a safada. Como boa perdulária, escolheu um compacto sim, mas completo, e ainda recheou de acessórios.

Ficou feliz da vida com o “Arnaldinho”, como batizou o carro. E como a mobilidade ajudou na vida de Salete. Atravessava a cidade em minutos, não se atrasada mais para os compromissos. E não dependia mais de táxi para levar a sacolaiada de compras do shopping para casa.

E como tinha ganhado o carro, resolveu recompensar o mundo ao redor (e não agradecer a deus, de quem se dizia crente o tempo todo). Foi no shopping e comprou presente para a família toda, para as amigas, para o namorido e arriscou até um presentinho para o filho adolescente dele.

Salete foi juntando sacolas e sacolas e apinhando no carro. Na terceira remessa percebeu que não cabia mais nada. Então, fazer o que? Primeiro, mandou mensagem para o namorido, que não pôde acudi-la por estar num compromisso com a esposa. Salete estava desolada, não sabia o que fazer. Foi então que teve uma ideia genial: chamou um táxi. E antes de partir em caravana para casa, ainda comprou mais uma remessinha de presentes, agora os dela. Cartão do namorido, óbvio!

Chegou em casa, vestiu uma lingerie maravilhosa e romântica que comprou, subiu nas sandálias de saltos altíssimos, colocou touquinha de papai noel e fez fotos no espelho. Mandou para o namorido (provocar) e para o ex-namorado-e-ainda-amigo-colorido (convidar).

Natal é época de dar. Talvez por isso Salete sempre foi uma entusiasta da efeméride. Ela amava o natal, a família, o namorido e tinha uma bunda maravilhosa.

:: 09.10.2013 ::

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Corredor Polonês

Uma brincadeira que existia nas escolas em que estudei, durante praticamente todo ensino fundamental. Não tinha regras, líder, tampouco cronômetro. Nunca soube quem inventou.

Começava sem aviso. Um pequeno grupo se posicionava ao redor de uma passagem qualquer: um corredor, a entrada de uma sala, um canto do pátio. Ficavam ali com cara de paisagem, sem dizer ou fazer nada. Então outros, sem convite (olhares cúmplices valem como convite?) posicionavam-se ao lado, até uns 12 a 16 formarem um corredor. A partir dali, cessava todo o tráfego no local. Porque o Corredor Polonês estava formado. Quem passasse tomaria uma série de bordoadas dos que formavam o corredor, com o que tivessem a mão, a pasta, uma blusa enrolada, pés, tapas, enfim...

Então um corajoso pegava embalo e atravessava a toda velocidade se defendendo como podia. E chegava vitorioso do outro lado, passando a fazer parte do corredor. Na sequência outros tomavam coragem e atravessavam.
 
A coisa ia assim, brincadeira civilizada, até o momento em que tudo virava baderna (estapeamento geral) ou um inspetor aparecia. Aí o corredor se dissipava e a molecada voltava a seus afazeres.
 
Tem gente que acha que as crianças de hoje, com seus videogames, imersas num mundo politicamente correto, é que se divertem.

Em tempo: meninas bonitas e/ou de desenvolvimento precoce eram imunes ao corredor.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Se eu tivesse uma dessas...

Tem um comentário recorrente dirigido a quem, como eu, tem moto grande. Em particular, se for esportiva.

Situação motoboy:
- Se eu tivesse uma dessas, eu não durava uma semana.
- Ah, tá. Quer dizer que você é um cara super corajoso e arrojado e eu sou bundão.

Situação indigente:
- Se eu tivesse uma dessas, eu morria em uma semana.
- Tá bom, flanelinha. Se apresse nessas três pedrinhas de crack que estão no seu bolso, que não passa nem de hoje à noite.

:: 09.10.2013 ::

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Como ser amigo de um homem lindo

Uma paródia aberta do aclamado texto de T. Bernardi, enviado por um leitor anônimo, como contribuição. Ele é gaúcho, formado em propaganda e fez pós graduação em estética. Usa tamancos e tem vários cursos especializados em depilação íntima, tintura, cabeleireiro, dança de salão e decoração de interiores.

Acho que de todos os exemplos, o dos pentelhos é o mais cruel. Ele tem os pentelhos escuros, lisos, brilhantes. Quando sangro, ficam meio avermelhados e as pessoas a param na rua pra perguntar "que cor maravilhosa é essa?" e ele responde "meu cachecol de rola...". O pentelho é tão bom, mas tão bom, que pra dar um "tchans" ele faz permanente. E o resto dos mortais misturando dezenas de fórmulas importadas pra conseguir sair de casa sem parecer que está há séculos sem tomar banho, acumulando ceroto.

Às vezes ele diz "espera eu me arrumar, não posso ir assim" e eu fico olhando e pensando que nem em oito horas num salão de beleza eu alcançaria a perfeição que ele atinge apenas de regata, shortinho, havaianas e hipoglós no cu. Ter como melhor amigo um homem lindo é receber todos os dias uma socada na boca. Você com fome, a bile te queimando por dentro... e ele vem, com vaselina, e termina de te rasgar. E você sorri "tá, eu espero...".

Em seu currículo existencial tem sempre um amigo que sumiu. Tenho dó. É preciso muita coragem, força e uma dose de masoquismo pra estar ao lado de tamanha beleza. Ele diz "poxa, o Rômulo vivia aqui, de repente... sumiu". E eu penso "antes de desistir o pobre Rômulo deve ter tentado vaselina, xilocaína, anestesia, sutura, pompoarismo, exercícios... quando viu que não tinha jeito, o jeito foi fazer de conta que você não existe.".

Alguma mágica interestelar combinada com alguma natureza esplêndida fazem, diariamente, com que todos os salgadinhos escrotos, sanduíches macabros e refrigerantes grotescos que ele consome não grudem na parede de seu toba. Quando ele ajeita a sunguinha na praia, pra deitar, eu me divirto com os bofes em volta, todos com a educada exclamação "bichona louca" tatuada na íris.

Numa fase meio deprimida (sim, homens lindos também ficam #chatiados), ele resolveu que só sairia na rua com a boca muito pintada de vermelho. Os pentelhos levemente cacheados pelo permanente eram rococós que emolduravam a sua verga enorme, bem torneada e, agora, na versão cor do pecado. E sempre alguém, numa roda de amigos, pergunta "essa benga volumosa é sua?" e ele sem graça responde "é, nasci assim...". Ele sempre se desculpando por ser lindo e os outros sempre fantasiando que sua beleza não é real, numa tentativa de desculpá-lo. "E esses pentelhos longos e enormes e muitos...". "São meus...desculpa".

Mas muito mais sofrido do que estar com ele é não estar com ele. Tem sempre um desgraçado que me vê de longe e atravessa a rua correndo. "Lindo, quanto tempo!!! Queria MESMO MUITO falar com você". E eu já sei que é pra perguntar se meu enormemente dotado amigo está finalmente solteiro. E ficamos então alguns minutos num papo super profundo. Lindo, né?

Nossa, muito. Bem lindo mesmo. Porra, lindo pacas. É, lindo demais. Lindopacarai. E então eles começam a gemer. E eu já nem ligo mais, no fundo bato uma enquanto escuto.

Certa feita fui convidado para um show do Caetano Veloso. Me arrumei todo, tadinho. Me depilei todo, tadinho. Comprei até sapatinhos novos. Tadinho. O cara até gostava de mim, até me achava bonito, mas eu vi o momento exato em que ele, ao notar meu amigo numa calça preta e apertada, dividiu o universo entre antes e depois. E eu ficaria pra sempre no antes.

Estar ao lado do meu estonteante melhor amigo é assinar pra sempre um pacto com o prêmio de consolação. É escolher pra sempre ser o boy delícia ao lado, o amigo do, o outro. É estar tão longe do centro das atenções que preciso de uma lupa para vislumbrar minha piroquinha. É ensebar a franja de tanto que dói ser invisível.

Em nome de uma vida mais digna, eu poderia, assim como fez Rômulo e uma boa gama de amigos mais frágeis, ter partido o cu. Mas o fato é que na madrugada de um voo para Londres, no qual eu (com o velho e já sabido e muito analisado pavor de aeronaves) me dopei com algumas tarjas pretas, o adônis universal em forma de amigo teve por mim uma paciência jamais vista nem nos melhores dias de mamãe. Ele acordou de duas em duas horas para ver como eu estava. E eu estava muito drogado mas pude acompanhar seu passinhos lindos pelo corredor, sua mão quente acariciando meu pinto, tudo pra checar se eu me comportava como um homem de trinta e quatro anos ou tinha virado uma bicha louca desvairada.

Em nome de uma vida menos humilhante, eu poderia ter dito "gato, fui, parti grandão, desejo que você e a sua fantástica benga sejam muito felizes lá na putaqueopariu" mas o fato é que o espetáculo em forma humana é o porra do meu melhor amigo. É quem me liga todos os dias pra saber como estou. É quem segura minha pica quando eu tenho ataque de viadagem. É quem esteve em minha casa em todos os meus términos de namoros, gripes, hemorróidas e confusões mentais.

O homem muito bonito sabe que, em sua maldita sina de perfeição solitária, só lhe resta ser tão legal, mas tão legal, que o legal seja ainda mais incrível que sua rola e seu tórax e sua batata da perna. Já ao homem "inteligentinho e engraçado", classificação que nos salva no colégio e segue nos salvando pelo resto da vida, cabe tirar o melhor proveito disso e transformar o resto em piada.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

O politicamente correto e a brutalização das relações

Entre um copo e outro, o assunto era o perigo que os conquistadores correm, hoje em dia, de serem capturados naquilo que a justiça acha por bem configurar como "relação estável". Falou-se até num contrato que existe hoje, que certos casais desapegados celebram, garantindo que tudo ali é só namoro e desobrigando-se dos bens e ganhos do outro. Um tipo de separação universal de bens sem o "pode beijar a noiva".

"Onde está o romantismo?", retrucou o Zé. "Parem de racionalizar tanto, vocês são uns covardes!". Mas os cuidadosos continuaram a falar dos perigos de levar uma peguete repetidamente para casa.

O Zé defendeu seu ponto de vista romântico com aquele ideal de "one night stand" seguro:
1) O sujeito lá na balada, antes de "dar uns pega" na garota, pede a identidade, verifica se é maior e chama duas testemunhas, pois se o documento for falso, ele é que foi enganado.
2) Chegou em casa com a piriguete, nada de dar bebida para ela, para não correr o risco de ser acusado de estupro de vulnerável.
3) Falando em estupro, antes do vuco-vuco, fazer a moça assinar uma declaração de que praticará o coito de livre e espontânea vontade, leva num cartório, reconhece firma e, aí sim, podem festear.

"Vocês vão todos à merda!", descascou o Zé.

"Quebrar a regra da segunda saída é muito risco", argumentou o cuidadoso-mor. "Vejam o que aconteceu com as diaristas. Você só pode chamar em casa no máximo dois dias por semana. Passou disso tem que registrar em carteira."

"O negócio é pegar prostituta. No fim das contas sai mais barato e não tem encheção de saco", disse o terceiro.

Aí o Zé não se aguentou: "Você que pensa. Seguindo essa lógica, se você começar a sair demais com uma 'preferida', pode levar um processo de relação estável. E no caso da vara de família te liberar, ainda corre o risco de levar um trabalhista na testa por falta de registro em carteira."