segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Entre as diversas formas de tortura no trabalho, o amigo secreto

Odeio me integrar com o pessoal do escritório. É uma falsidade gritante, terra de canibalismo. Quando armam os happyhours arrumo um compromisso falso e fujo para casa, para aquilo que faço toda noite, o que, a propósito, não tem nada de especial.

Só que em 2014 não escapei do amigo secreto de fim de ano. A dona da empresa marcou um churrasco no começo de dezembro porque ela, como é minha rotina, tiraria férias a partir de meados de dezembro. Cada um com seus motivos.

Peguei a própria no sorteio. É o que me faltava: além de comprar presente para a secretária do financeiro, casadinha e minha amante depravada, eu teria de perder mais tempo e comprar algo para a chefe, mulher difícil e que tem tudo. Pior, entregar na frente de toda a equipe. Tentei até subornar o estagiário para trocar o amigo secreto, mas ele nem por dinheiro ele quis minha sina.

Passei horas no shopping para resolver a fórmula e acabei comprando dois jogos de lingerie sensuais, tamanhos bem diferentes, a propósito.

No dia do amigo secreto comecei a me embriagar em casa, vodca-da-manhã, a santa bebida que não deixa gosto. Na firma, quando me chamaram para o churrasco, eu dormia sobre a mesa.

Eu sentia náuseas enquanto assistia ao joguinho insuportável de adivinhações, e quando me chamaram ganhei um par de meias pretas. Não uso meia preta nem de terno. Vontade de por uma no pinto e estragar a festa me exibindo para a mulherada. Então foi minha vez. Claro que confundi os pacotes e dei a lingerie tamanho grande para a chefe. Quando ela abriu foi um escarcéu. Depois de muitas risadas do galinheiro corporativo, disfarcei e fiz que fui pegar o presente "de verdade". E não é que acertei o tamanho da calcinha? Já o sutiã ficou aparentemente apertado. Duro foi, depois, negociar com a cavala do financeiro a entrega do presente desembrulhado.

Pensar que ainda faltavam dezoito dias para a minha tradição natalina: vontade irrefreável de suicídio.



:: 25.11.2015 :: miniconto de natal

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Quando o dia das crianças não faz mais sentido

Depois de muito pelejar na clínica, acabei me estabelecendo como psicólogo de um colégio particular na capital. Uma escola notadamente da elite e que pagava muito bem. Nada do que eu presenciei desde os tempos de faculdade, desde as histórias cabeludas contadas pelos professores e por minha experiente terapeuta, nada me preparou para o que eu vou contar.

Eu já estava acostumado o lidar com essa gente. A maioria dos casos estava relacionada à fragilidade inerente à psiquê de quem tem tudo que quer. Algumas vezes, até, tinha que reequilibrar professores após enfrentarem a petulância dos alunos e a arrogância dos pais, felizmente exceções, mas bastante desagradáveis.

Então alguma coisa na “saúde mental” da escola saiu dos trilhos. Dava para perceber nos corredores e nos pequenos casos de histeria que eu tinha que administrar. O alarme soou mesmo quando uma aluna bastante amadurecida fisicamente pelos, vamos dizer, quinze anos, começou a se insinuar para mim. Justamente eu, que na época não costumava cuidar da aparência e menos ainda do guarda-roupas. Eu que fazia questão de passar despercebido em todas as ocasiões.

Comecei a investigar, conversar detidamente com cada aluno que entrava em minha sala. Busquei o significado por trás de cada palavra ou somatização. Estive mais presente nos corredores observando as manifestações e burburinhos. E, claro, entrei a fundo (sem trocadilho) no caso da aluna que me ofereceu quase que escancaradamente suas virtudes.

O que minha intuição já sugeria, a conversa com um garoto revoltado após uma briga confirmou. O pequeno Bruno se atracou com um atleta do time de judô, apanhou feio, e mesmo assim não se rendeu. Chegou a minha sala retraído. Transpirava revolta. Depois de rodeios profissionais, muita confiança conquistada, e antes de chamarmos os pais à escola, ouvi o pequeno confessar que o judoca se gabou de o pai ter transado com a garota que ele, Bruno, gostava.

Comecei a chamar aquele movimento de “Mandala de Electra”. Um grupo de doze a treze garotas que se desafiavam mutuamente a seduzir os pais umas das outras. Sobrou pra mim, inferi, porque o pai de uma delas morava em Londres.

Cumpri meu papel e denunciei o “joguinho” perigoso ao conselho da escola, que era a quem eu me reportava (sim, eu exercia uma espécie de auditoria moral em relação aos corpos discente, docente e ao diretor). Nas investigações e interrogatórios que se seguiram, descobriu-se que mais da metade das componentes da “mandala” logrou êxito no desafio.

É bom frisar que se trataram de investigações de caráter administrativo. O caso foi sumariamente abafado e a polícia não tomou conhecimento. Aliás, tomou, porque não aceitei e denunciei: delegado, ministério público, juiz e até jornalistas. Ninguém moveu um dedo.

Não sei que proporções, nos dias de hoje, na era da transparência, um escândalo deste tomaria. O fato é que perdi o emprego e, evidentemente, abri mão da paternidade.

:: 28.09.2015 ::

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Escândalo III

Primeira gestação da gatinha, noivinha, casamento marcado. Ia casar barriguda mesmo. Vestido caro, não pra esconder, mas para valorizar a silhueta. Toda romântica nos preparativos, toda maternal na barriguinha. Lua de mel dos sonhos. Semana seguinte, com seis meses de gestação, conheceu um carinha na internet e foi pro motel com ele. Deu até arder. O carinha, que tinha tara em grávida, curtiu, bebeu leitinho e fotografou. Nunca divulgou as fotos na web.

:: 05.01.2015 ::

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

50 tons de gasolina



Gostava da companhia, dos presentes e das coisas que ela pagava, motéis caros, substâncias recreativas, "amigas" que ela levava junto... Gostava também de dirigir a SUV japonesa enorme da japonesa. Do ano. Quando passava todo mundo olhava.

Não era bonita, mas a conversa era sublime. Só que a bebida e as substâncias permitiam que a coisa rolasse, por mais que evitasse. [“Se me ver grudado com mulher feia, aparta que é briga”]

Conversas boas e submissão de gueixa (massagens, banhos, entretenimento culto) valiam muito a companhia. Um dia pensou numa solução pra não comer: antes de sair, batia uma.

Mas teve um dia que ela chamou de surpresa, não deu tempo, e quando reparou, no motel, que ia rolar, começou a bater uma na frente dela assistindo ao pornozão que passava no telão. Mas com ela olhando não vinha, então batia bem rápido. "Parece um macaquinho punheteiro", ela disse.

Fácil se acostumar com essa rotina destrutiva e pra lá de divertida. Um dia o marido descobriu passou a acorrentá-la em casa quando viajava (literalmente). A festa acabou e deixou um vazio. Descia uma lágrima discreta toda vez que via uma SUV japonesa daquelas que quando passam a gente olha pra cima.

:: 23.07.2015 :: Originalmente lançado na edição 50 da revista Sobre Rodas (em homenagem).

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Michele Pfifer pé vermelho

Foto - fonte: Internet/divulgação
Você não deve saber, ou talvez se lembre, mas no centro de Curitiba, na Rua Comendador Araújo, mais ou menos pelo número 150, onde hoje tem um restaurante "quilinho" bem bom, exatamente naquele ponto havia uma galeria, e no fundo da galeria, até duas décadas atrás, uma boate. Não chegava a ser inferninho, mas tinha um público bem boêmio.

Do alto dos nossos quase 20 anos costumávamos frequentar esses lugares atrás de alguma aventura de uma noite, o que raramente se concretizava. Naquele dia encontrei uma garota de 19 anos que destoava do ambiente. Era bonita demais e meio fora da casinha (minha incorrigível queda por loucas). Ela lembrava muito a Michele Pfifer, na época no auge da carreira. Aliás, não vamos ser modestos: era praticamente sósia da MP, talvez um pouco mais baixa.

O fato é que investi firme e nos atracamos na boate, daqueles amassos de quase chegar nos finalmentes. E dançamos. Na conversa, a despeito de toda desconfiança, porque a casa era frequentada também por moças que alugavam a periquita, deu pra perceber que a MP destoava do ambiente. Era de família, de Londrina, e estava a passeio em Curitiba. Deixei a moça na casa da tia, onde se hospedava e obviamente não poderia me receber.

Já armei com o Ygor (cujos pais estavam viajando) de, na tarde seguinte, ele liberar a casa para eu levar a moça. Comprei uma garrafa de Liebfraumilch (garrafa azul, vinho docinho, lembram?) e tudo correu que foi uma maravilha. Em menos de uma hora eu já estava em cima da moça, que não tinha o corpo da MP, mas até sorria igual. E foi justamente no momento que penetrei, a minha MP, na primeira estocada, que sobressaiu sua característica mais interessante: cada vez que eu penetrava fundo, os olhinhos azuis se encontravam. Ficava vesguinha de tudo. Eu até me desconcentrei do sexo testando. Socadas leves, normal, socadas fundas, ela "vesgueava".

Foi uma festinha bem divertida. Tanto que um mês depois, na noite mais fria daquele ano, descambei de ônibus para Londrina, fiquei na casa dos pais dela. A MP parananese preparou tudo para nosso reencontro. Mas isso dá outro miniconto.


:: 30.04.2015 ::

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Escândalo II [miniconto com pegadinha]

Ia sozinha em bar quando estava a fim de “conhecer pessoas” (mania que mulher tem de não colocar objetivamente a motivação). Preferia ir sozinha. Já quando saía em turma sempre se resguardava, para não ser rotulada de “fácil”.

Mas mulher gosta de falar, por isso passava horas incomodando barman ou garçom. E foi um desses que um dia se encheu e convidou a “largada” para um motelzinho. Ela recusou, então ele desafiou “você não tem coragem é de ir em motel”. Ela teve a brilhante ideia de se desafiar a ir ao motel sozinha. E como não tinha carro, foi de taxi (grande coisa, levar gente sozinha em motel é normal pra taxista).

No caminho foi justificando: “dei o fora num grudento e estou abalada demais para voltar pra casa”. O taxista velhote foi quem comeu.

:: 05.01.2015 ::

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Escândalo I

Era de classe média alta para cima, dessas que rotulavam “de sociedade” e só se satisfazia de um jeito, fosse namoradinho ou parceiro casual: fazer sexo oral no estacionamento de um shopping center bem localizado. Sabe-se lá se era a adrenalina de poderem ser flagrados, ou um fetiche gourmet de, logo após engolir, ir à praça de alimentação e pedir um Mac para rebater a “amarra”.

:: 05.01.2015 :: Publicado originalmente no Bar do Escritor

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Grau indefinido de parentesco

Jorge e Jean eram primos de primeiro grau. Embora morassem em cidades distantes, passavam juntos as férias da infância e adolescência no sítio da vó Laurinda. Eram companheiraços nas brincadeiras e aventuras de criança, desde jogar bola até nadar no rio.

Foi natural o distanciamento lá pela metade do segundo grau, e aí vieram a universidade e os primeiros namoros, cada um seguiu seu rumo.

Então a prima Soninha marcou um daqueles grandes encontros de família num natal no sítio da avó. Reuniu gente de todo lado, aliás, veio praticamente todo mundo! Iniciados os festejos, os dois se encontraram e, enquanto lembravam dos velhos tempos, o Jorge notou que o Jean estava mais delicado, meio arrumadinho demais. Depois que bebeu “um frisante”, ficou até afetadinho. O Jorge puxou uns assuntos de mulher, mas o Jean não engatou. Só pode ser coisa de agora, pensou, pois em certas ocasiões até cama dividiram, e nunca que o primo manifestou esse lado borboleta.

O fato é que a festa seguiu, e se distraíram nas conversas com os demais, e chegou a hora de acomodar a “parentaiada”. Como a casa principal ficou lotada, sobrou para o Jorge e o Jean o quartinho de trás que eles dividiam nos tempos de moleque. A vó Laurinda fez questão de arrumar as camas do jeito que fazia quando eram crianças.

O Jorge ficou meio incomodado, se trocou no banheiro, aproveitou que estava embalado nas cervejas, apagou a luz e virou pro seu lado pra dormir. Nem o digitar nervoso do primo em mensagens no celular incomodou. Nem as risadinhas contidas. Mas o sono não vinha. Aí começou a ouvir um barulho, um fap-fap-fap suspeito que aumentava e diminuía de ritmo. A respiração do Jean ficava mais pesada. Só falta o infeliz estar batendo uma na cama ali do lado. No que estará se inspirando? Será que é sexo virtual? Será que é sexo GAY virtual?

Pior é que o Jorge não tinha coragem de olhar pra trás pra ver se era aquilo mesmo (enfim, era uma conjectura), nem de falar alguma coisa pra cortar o clima. Aí, o que no início era um fap-fap-fap discreto parecia que tomava conta de todo quarto. Vai que ele está virado para o meu lado! E se a inspiração sou eu? Vai que ele chega lá e respinga alguma coisa em mim!

Então o Jorge não se conteve, levantou no escuro mesmo, e disse com uma voz imponente: “Desculpa incomodar, primo. Minha bexiga está cheia. Vou explodir se não mijar.” E foi para o banheiro. Quando voltou, o Jean já estava dormindo todo encolhidinho.

:: 25.11.2014 ::

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Distanciamento zen é o cacete

numa dessas redes sociais, o zé começou de papo com uma yogi. nas conversas ela sempre permanecia equilibrada, e distanciava-se quando o assunto era paixão e sexo. o foco dela era yoga, esoterismo e autoconhecimento.

mesmo insatisfeita com o marido ogro, andava ainda de matrimônio engatado. pois dois dias depois de começarem a conversa digital, aceitou sair com o zé. a moça mandou umas fotinhos, mas sempre se pode tomar um susto. então ele armou o esquema do shopping, em que dá para fugir em caso de “emergência”.

a moça apareceu meio desarrumadinha mas dava pro gasto. do shopping foram para um servcar, já que ela estava numa SUV monstruosa com espaço de sobra. segundo o zé, ficou linda na SUV.

no approach, ele manteve uma certa distância, para não parecer afoito. e dá-lhe escutar discurso sobre yoga, esoterismo, medicina alternativa, sobre como a carne é transitória blá-blá-blá-blá. já no banco de trás, foi interessante a forma como ela foi aproximando as pernas dos quadris do zé. tronco distante mas tocando o púbis até os sexos se friccionarem. mas não descolava da postura zen. aí o zé não se aguentou e falou que a roupa estava atrapalhando, ela concordou, tirou uma peça, aí ele escancarou e ficou peladão no banco de couro.

que yoga, o cacete! ela caiu de boca afoita como toda balzaquiana que se prese, quase engoliu o rapaz com bolas e tudo. no tesão, a yogi implorou para o zé libertar a kundalini (gozar, no português). e como ele não esperava muito mais devido ao discurso careta-esotérico, liberou o mais rápido que deu, antes que ela mudasse de ideia e resolvesse descambar para o tantra.

a parte engraçada é que só então ela resolveu que queria transar, mas era tarde, o zé já tinha consumido toda a energia do chakra. aliás, até tentou o serviço em meia bomba, mas deu preguiça.

mundo de contradições... isso de esoterismo é discurso. no calor das emoções somos todos uns putos.



:: 29.09.2014 ::