quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Lugarejo (ou história de terror que Hollywood nunca filmou)

Num lugarejo de trinta e poucas famílias perdidas no meio do mato, ou do nada, como você preferir, a velha coloca uma ponta de galho no fogão a lenha e conta como aconteceu. Era uma moça linda, que nasceu pros lados de cima. A velha reforçou que morava pros lados de baixo, como quem diz eu só sei, não sou eu não moço.

Mas era muito linda mesmo, todo mundo olhava e dizia é um anjo. Até o pessoal da cidade que às vezes aparecia elogiava que ela poderia ser miss. Um dia a moça linda conheceu um rapaz da cidade, e era um tal de andarem juntos pra tudo que é canto que a mãe soltou a verdade sem rodeios: o moço é teu irmão. Desgrudaram como tinha que ser, ele foi embora, mas deixou barriga nela.

Mal nasceu o bebê e a moça linda enfiou-lhe um garfo na goela. Morreu engasgando sangue. O pai enlouqueceu e começou a procurar a filha linda que era dele. A mãe morreu de desgosto. A filha foi dormir com o pai, teve um filho que o pai mesmo fez o parto e enterrou no quintal. No dia seguinte o cachorro andava pra lá e pra cá com o bebê morto na boca. O pai então fez outro filho na filha, e depois de muitos anos fez filho na neta.

:: 25.10.2012 :: história contata por uma... velha

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Escambo

Botequim de beira de estrada. Eu na mesinha de fora esperando o tempo e o calor passarem. Pensava em dormir relaxado logo depois, e tocar viagem dia seguinte bem cedo. A conversa lá dentro chamou a atenção.

O Sebastião, de meia idade pra mais, engravidou a esposa fogosa, mas pegou nojo de ter com ela grávida. Mal encostava na mulher. Pediu para o amigo Uilso "cuidar" dela durante esse tempo, porque faltar à obrigação acabaria por transformá-la num cramulhão ensandecido. “Eu arrupio só ni pensar”, desabafou.

Passadas umas pingas, o Sebastião começou a negociar com o Uilso pra pegar a mulher dele na troca. Uilso, mais jovem e varonil, retrucou que daria conta das duas, que o amigo fosse procurar uma puta.

O problema é que a mulher do Sebastião era brava e não gostava de puta, não deixaria ele ir com uma qualquer. E claramente ela é que comandava o show, liderança herdada do medo que os outros tinham de enfrentar a febre dos "ormoni". A mulher do Uilso, tadinha, não sabia ainda do acordado.

:: 21.09.2012 :: Doce historinha contada pela incrível Lu

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Das diversas formas de tornar o filho um macho

O cortiço no fim da rua rendia histórias divertidas para animar as conversas da vizinhança. Eram algumas casinhas germinadas, improvisadas, e, nelas, gerações de famílias amontoavam-se em poucos cômodos. Difícil dizer se a criança era filho, irmão ou neto de alguém. Entre elas tinha o Leozinho, moleque grudento que era o terror quando entrava em casa para brincar. Falava demais, contava vantagem, fuçava em tudo... e a situação se agravou.

A mãe do Leozinho era uma gorda impetuosa, que visivelmente se impingia sensualidade. A ascensão da classe D (bolsa família, bolsa gás, defeso etc.) premiou-os com um aparelho de DVD. Ela então teve a grande ideia de passar filmes pornôs para o filho assistir, desde os dois anos. O pior é que alardeava entre os pares que “assim ele aprende e vira macho”.

Até o dia em que a turminha da rua (os do cortiço e os demais) se enfurnou numa garagem e resolveu brincar de médico ou coisa parecida, e o Leozinho tascou uma dentada no bingolim de outro moleque. De tirar sangue. Necessário explicar o que causou a dentada?

Do posto de saúde (foram só uns pontinhos e um trauma indelével) a mãe do "mordido" foi direto à delegacia dar queixa. A Justa acareou os envolvidos e achou por bem contemporizar.

Dias depois, tudo voltou ao normal na rua, menos as sessões de pornô, pois a mãe desnaturada tomou uma descompostura do delegado e o fato de a presença do Leozinho gerar certo alvoroço e passar a ser monitorada de perto pelas famílias.

:: 13.09.2012 ::

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Alopatia no tratamento do alcoolismo - Caso 2

O OUTRO LADO DA MOEDA - Um camarada encontrou o Armando na Praça Santos Andrade e, como médico nenhum consegue evitar, partiu para uma consulta informal:
“Você sabe que eu só bebo em casa, né? Diminuí quase totalmente as botequeadas.”
“É, em casa a gente acaba até bebendo menos.”
“Não é bem o meu caso. Mas sabe que acho que peguei uma alergia à cerveja daqui? Deve ser coisa da água.”
“Como assim?”
“É eu tomar umas cervejas e me dá um vermelhão, me sinto mal, formiga tudo. Como se desse ressaca na hora. Fico ruim de despencar na cama.”
“Ah, isso é sensibilidade a álcool. Pode aparecer com a idade. Não tem nada a ver com bebida da região.”
“Que nada. Dia desses fui num futebol com os amigos num sítio perto de Joinville. Depois rolou churrasco, e aí você sabe. Tomei caipira, pinga, uma cervejinha... primeiro com certo receio, e como não deu nenhum ruim, entornei o caldo. A bebida daqui é que me faz mal.”

O Armando achou melhor o amigo descobrir sozinho o estratagema.

Registre-se que o namoro do Zé com o projeto de rádio patroa não vingou.

:: 15.08.2012 ::

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Alopatia no tratamento do alcoolismo - Caso 1

Terminada a visita periódica ao ginecologista, a paciente faz um pedido:
“O doutor pode me fazer uma receita de Sarcoton?”
“É para a senhora?”
“Não, não. É que meu marido anda exagerando na bebida. Vou colocar na comida dele.”
“Mas o tratamento do alcoolismo só funciona se o paciente tiver firme propósito de parar de beber.”
“Ele não quer parar, doutor. É teimoso feito uma porta e bebe até ficar como um porco.”
“Tudo bem, vou fazer a receita. Mas a senhora tome cuidado, que se ele descobre vai lhe cobrir de porrada.”

(continua...)

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Alopatia no tratamento do alcoolismo

Lembra da época em que o Zé dividia uma república com o Armando, estudante de medicina? Um dia uma namoradinha do Zé perguntou para o Armando se ainda existia aquele medicamento Tiralcool enquanto olhava torto para o Zé entornando uns gorós excessivos no boteco.

Como o MCP também é cultura, o nome do medicamento mais comum hoje para tratar alcoolismo é Sarcoton. A bula diz: “Indicado como auxiliar no tratamento do alcoolismo crônico. Ele não é a cura para o alcoolismo; simplesmente fornece ao indivíduo um apoio ao seu desejo sincero de parar de beber. (...) A ingestão de álcool por indivíduos previamente tratados com Sarcoton (Dissulfiram), dá origem à sinais e sintomas acentuados, conhecidos como reação dissulfiram-álcool, caracterizados por: sensação de rosto quente, vermelhidão no rosto, dor de cabeça intensa, dificuldade de respirar, náusea, vômitos, suor, sede, fraqueza, vertigem, visão turva. O rubor facial é substituído por palidez, seguida de queda da pressão arterial.”

(continua)

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Me puxa pela tripinha

Era dessas pessoas que verbalizam o que passa pela cabeça, seja o que for, com naturalidade e simplicidade. Não vou copiar aqui os erros de grafia porque aprendi na faculdade com o professor Tezza que isso é opressão social. O importante é o interlocutor entender. Passou o recado, fechou o processo.

O processo que eu queria fechar era sexual. A "tripinha" não. Ela se referia à lingueta do bate-papo de uma rede social. Eu me empenhava para colocá-la numa armadilha que envolve ingredientes de excitação e curiosidade. Dizem que infalível — menos com mulheres que buscam homens com carrões e/ou terninhos.

Em tom confessional tentei extrair um fiapo da libido dela. Funcionou. Contou que tempos atrás ficou de conversa com um cara. Na primeira vez que saíram ela fez sexo oral nele, rolou no carro mesmo. Nem foi em servcar (como se diz em Curitiba), mas numa rua escura e sem movimento. Ela sabia que ele estava com pressa porque tinha que se encontrar com a noiva. Pensei que alguma conservadora a recriminaria (o piegas "não faço com os outros o que não gostaria que fizessem comigo"). Isso nem passou na cabeça dela. "Sabe por que eu fiz? Eu queria mesmo era ser chupada. Mas, ali, no carro, não dava. Ou até daria, mas era complicado de se ajeitar e não tínhamos tempo. Eu não dava nem chupava fazia uns três meses. Vi que ele estava excitado. Ele queria se aproveitar de mim e eu dele, não somos mais crianças. Não ia desperdiçar uma ereção que era pra mim. Dei o gostinho pra ele e fiquei com o gostinho dele."

Depois confessou que nunca foi a um motel sozinha. A bares sim. Falei que essa fantasia do motel eu não teria condições de realizar. Ela achou engraçado e aceitou como se fosse um convite. Percebi que por baixo da simplicidade rústica havia uma mente arguta e cínica. Puxei pela tripinha.

:: 09.08.2012 ::

terça-feira, 31 de julho de 2012

Pão que te partiu

Agora sim! Depois de testar as perversettes e leitores com um continho que já havia sido publicado, mandamos, a pedidos, um real inédito do Felipe Arriaga Carriço. Não contavam com nossa astúcia, hein? Percebam a nuance poético-perversa!

Tamanha fome sentia.
Por isso os lábios lambia.
E quanto mais lambia,
ainda mais fome sentia.
Mas não mordia,
pois lambia para matar a fome
e se mordesse não receberia
o "pão nosso de cada dia"
que a velha freira lhe oferecia.

terça-feira, 24 de julho de 2012

MCPmate - Uma nova... "Leitora"



Ou podemos chamar esta incógnita/discreta de... Bicuda?

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Jukebox

Eu tinha quatro anos quando minha mãe foi trabalhar na zona. Ela abriu uma lojinha de roupa de criança. Nesse novo habitat havia casas e bares repletos de moças bem dispostas e alegres. Elas adoravam os vestidos e camisetas vermelhas da vitrine.

Nordestinas, catarinenses e até umas moças das redondezas, sempre a mesma história: gravidez precoce, azar na vida e/ou trazidas por algum caminhoneiro que, com promessa de vida melhor em outro lugar, as tiravam da miséria e descarregavam ali na cidadezinha portuária.

No inicio os olhos tinham brilho, pele jovial e viçosa, carne nova como diziam. Frequentavam a loja, compravam os artigos mais caros, tinham motorista de táxi cativo e podiam até recusar convites dos ensacadores fedidos de suor e soja. Meses depois já estavam mais velhas uns cinco anos, corroídas por noites em claro, abortos, bebida e droga, carne passada. Nos olhos o brilho cedia lugar para o vazio. Ganhavam pouco por muito trabalho, passavam a escolher a roupa mais em conta e pagavam fiado.

Depois desse cenário, precisei de anos de terapia para aceitar que não sou brega. Mesmo assim, no bar, às vezes coloco uma moeda na jukebox e escolho uma música doída de amor perdido.

:: 15.06.2004 ::