sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Maior ventania registrada nos últimos 100 anos

O Zé (não o dos contos, este é outro) é um grande amigo nosso, da TS-85 (que raios é isso? nem no google tem) que está em exílio intencional na França. E como era de se esperar, tá com banzo. Saudade, amigos, deixa a veia poética aguçada. O que publicamos abaixo não é exatamente um conto, mas um depoimento do que ele viveu na real há algumas semanas, no inverno francês. Ele escreve com o coração, cinismo e muito talento (cadê o blog, Zé?)

Zé Gasparin, de Tolouse, França - Maior pé-de-vento aqui no final de semana que passou. 130 km/h com rajadas de 170 km/h. Encontro de duas baixas pressôes no Atlântico, que atravessaram o norte da península Ibérica, Espanha e sul da França (paralelamente aos Pirineus), chegando no Mediterrâneo e atingindo também a Córsega (lá onde exilaram Napoleão). Avisos e alertas vermelhos a partir de sexta à tarde.

Na sexta à noite (início previsto da "tempête parfaite": quatro da matina de sexta para sábado), saí para verificar a segurança das venezianas, a posição dos carros no pátio pra não correr risco de preju, juntar alguns brinquedos da Maeva que ficam fora. Estava incrivelmente calmo, céu estrelado, tudo parado, prenúncio de uma grande cagada. Como nos filmes, nem passarinho piava. Incrível como a natureza manda suas mensagens, basta a gente estar ligado!

Pois bem, veio a ventania tal qual anunciada. Acordamos algumas vezes com o assovio do vento e balançar das janelas (antigas, 2,80m por 1,20m de largura). Mas como moramos no térreo e o castelo e sólido (construído no século XII e "reformado" no XVI), fiquei tranquilo. A Maeva dormia como anjo, isso era o mais importante.

Sábado cedo, tomando meu café, susse, o vizinho aqui do castelo que mora no segundo andar bate à porta: "Bonjour José!". Disse que não via a copa da árvore do vizinho de sua janela, tampouco o carro da Elena no estacionamento! E deu um sorriso de canto de boca. Pensei: "Típica história do gato no telhado". Agradeci e tranquilamente terminei meu café, já que ventava muito forte ainda.

Perto do meio-dia fui ver o estrago e fiquei de cara! O vento, de tão forte, quebrou a metade da árvore (de uns 4 m) do vizinho, que andava meio podre, arrastou-a uns cinco metros, forçou a cerca que divide o jardim ao lado do estacionamento do chateau (amassando-a como papel), vindo se aconchegar sobre o Yaris (Toyota dos pequenos) da Elena. Estrago: capô em "V" e parabrisa estilhaçado. Um "S" de um dos galhos de uns 25 cm de diâmetro parou a uns 3 cm do volante... O outro pedaço da àrvore "assentou-se" sobre o tanque de gasolina e guidão da Guzzi 1200 do vizinho. Essa pouco rodada. Fiquei com pena dele.

Tirei várias fotos pro seguro e depois foram 40 minutos com uma motosserra emprestada para "fazer lenha" da arvore tombada. Senti-me um idiota por ter saído na noite anterior, olhado as árvores e não antecipado a possível queda da árvore do vizinho.

O seguro já se encarregou de tudo (aqui não tem PT quando as despesas superam 60% do valor do veiculo, mas quando passam 24 horas de mão-de-obra!!). Hoje entregaram o carro reserva. Aguardamos a avaliação do perito sobre o futuro da caranga.

Três pessoas morreram nesta ventania toda. E vejam como quando chega a hora, não tem como escapar:
- um parado no sinal vermelho, quando uma árvore quebrou e caiu sobre seu carro;
- outro saiu por dois minutos juntar qualquer coisa no terreno quando foi atingido no pescoco/cabeca por algum objeto que estava "voando" na ventania;
- um terceiro, apesar dos avisos para todos ficarem dentro de casa, estava descendo uma montanha de carro quando o vento o tirou dos trilhos da pista, o carro escorregou no gelo e, sem controle, "blam-blam-blam" montanha abaixo.

Domingo saímos no meu Renault Diesel ano 86 véio de guerra (nesse a arvore não caiu em cima!) e vimos árvores tombadas e arrancadas com raiz e tudo, muros seculares tortos ou caídos, postes atravessados, sinaleiros virados pro lado errado etc. Percebi que não fomos tão desafortunados assim.

Até fiz uma fezinha na Euromillion que, nesta sexta, tá acumulada em 28 milhões de euros. Se eu ganhar, tá todo mundo convidado pra vir degustar as iguarias da região sudoeste, acompanhadas do vinho local... pra celebrar a vida!!! [ganhou, Zé? podemos reservar as passagens?]

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

No chão do ônibus e sem almofadas

o zé pegou um busão pro interior de são paulo, viagem de nove horas com muitas paradas. indiferente à torcida do rapazote para sentar uma mulher bonita do seu lado, o destino acabou, como sempre, colocando um velhote falante.

numa das paradas uma moça lindinha e meio riponga entrou e não tinha onde sentar. viajaria em pé ou no chão até vagar poltrona (antigamente tinha dessas coisas). o zé, muito cavalheiro, ofereceu o lugar para ela. o problema é que havia também uma velhinha em pé, e a lindinha declinou por causa da velha.

o zé, com seu espírito altruísta, cedeu o lugar para a senhora, e ficou sentadão no chão perto da moça. ela se chamava mariá. quer dizer, a mãe pôs o nome maria, mas para ser diferente ela deve ter acrescentado a mão, na certidão de nascimento, um acentozinho no "a".

conversa vai, conversa vem, beijinhos demorados, na outra parada vagou um banco. ela sentou rapidinho e, depois de alguns monossílabos trocados e nenhum beijo, "mariá" esqueceu o zé no chão, dormiu e só acordou de manhãzinha no ponto final. na despedida anotou o telefone na mão do zé. quando ele ligou, caiu num açougue.

:: 26.01.2009 ::

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Negociação para um menage

Tu já deves ter uma pessoa em mente, uma antiga namorada, ou uma amiga de confiança (da tua confiança, não da minha). Penso que se eu não conhecer bem a pessoa, é perigoso. Se eu estivesse solteira toparia no ato.

Se for uma prostituta, o que imagino não ser teu estilo, eu acho muito inseguro (embora sinta atração pelo lance "mestre-escravo"). Eu confiaria em uma amiga minha, mas ela vive em Oslo.

Se ninguém é de confiança, em último caso a gente mata a escolhida, corta em pedacinhos e joga no rio Tibagi. Claro, matamos depois que aproveitarmos bastante. Ah, eu quero guardar um pedacinho de lembrança, tá?

:: 28.03.2003 ::

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Compulsão

O importado que leva nossa heroína é silencioso, confortável, seguro. Bom demais para o motorista precário que contrataram. Ela ouve música, digere verdades e traga o gosto amargo do pó, "que merda que é cheirar e não ter com quem conversar". A garganta trava. Na casa noturna badalada, música, carne, bebidas, cheiros, mulheres, gays, homens, quase uma hora da noite e tudo pulsa. Seu corpo vibra, mas ela não está pronta para dançar. Precisa de um drink. Rostos passam na sua frente. Seios roçam com os de outra garota, lábios se mordem, "sou poderosa!"

A outra garota mexe, o umbigo se contrai, o corpo desliza de um lado para outro, mas o raio vai baixando e nossa heroína já não se sente tão bem. A garota parece não estar mais interessada. Nem a outra. Nem o voyeur do balcão do bar. O suor começa a escorrer e tudo piora. Já são mais de duas horas. Precisa de um drink. Nada nunca acontece. Olhares de descaso. Outro drink.

Tenta molhar o rosto. Os traços não parecem tão graciosos. O suor frio continua e ela não tem um tranqüilizante. Melhor é voltar para casa, tomar um comprimido e terminar com essa noite. Nada nunca dá certo.

:: 08.04.2003 ::

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Confissão futebolística [microconto interativo]


Até com camisa do __________ eu te pegava. Aliás, acho que pegava mais gostoso!

:: 01.12.2008 :: no lugar do "_________" coloque seu time do coração

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Um ano de MCP

Pois é. Até os desajustados têm alguma coisa para comemorar.

E na passagem desse 23 de janeiro, quase meia-noite (como sempre no limite), mudamos a cara, voltamos ao preto lúgubre requintado que agradava mais às leitoras, e deixamos um textinho meio que de testamento (o post Droga rápida ali embaixo), de fazer pensar na razão de estarmos aqui.

Um ano de pu.taria e loucura na blogosfera.

E a razão disso tudo são vocês. Porque dinheiro isto de blog não dá mesmo.

Continuem por aqui que eu continuo fazendo bem direitinho, tá?

Droga rápida

Sou um vampiro que suga histórias. Diante da vida e de narradores incautos eu escuto calado, atendo a detalhes. Depois, na luz fraca e amarela, sem qualquer escrúpulo, revivo e escrevo os momentos experimentados por pessoas interessantes ou, no mínimo, com mais imaginação. Emoções compartilhadas enquanto minha ansiedade não dissipa agitam a ampulheta do conhecimento, na esperança de aumentar o fluxo de areia que, todos sabem, não se altera. Ao penetrar em sua mente desprotegida, sou o novo personagem de histórias de horror, o vampiro mais sanguinário, epidemia cruel de absorção rápida e violenta.

:: 20.05.2003 ::

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Feridas

Mais um conto da Sra. Yfy, a escritora aprisionada na vida doméstica. Mas ela gosta disso.

Quando você aparece ele percebe. Meu corpo, mais uma vez chicoteado, demarca, como num mapa, domínio e posse em vermelho. Ferida que nunca cicatriza e ainda sangra. É dele o ciúme, meu o amor, sua a indiferença.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Consorte

O fato de eu trabalhar como hostess nunca incomodou meu marido. Os clientes pagam bem só para conversar, e também recebo comissão pelas bebidas que eles consomem. A gente ganha presentes caros, já ganhei até um carro, mas sempre me comportei.

A idéia é que a relação com os clientes fique só no âmbito da fantasia, mas desde que conheci você tenho me saído uma safada. Vivo imaginando uma traição no estilo dois caras me possuindo. Antes, quando passavam a mão em mim no bar eu fazia cara feia e me afastava. Hoje abro as pernas. Até no ginecologista vou depiladinha, pois acho que ele vai gostar de olhar. Você fez um buraco na minha moral.

:: 13.06.2003 ::

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

A menina da praia - Reveillon 2008/2009

A menina da praia me encantava. A casa dela ficava na rua perto da minha. Naquele dia cheguei perto dela quando jovava vôlei na praia com uma turminha, mas não consegui me aproximar para participar nem abordar a menina. Cruzei com ela naqueles dias no calçadão, acho até que olhou para mim. Mas a cidade estava muito movimentada.

Véspera de ano novo. Interessante como em Santa Catarina o povo adora fogos de artifício. No dia 31 desde a madrugada ouvimos rojões. Isso dura o dia todo. Talvez o momento da passagem fosse perfeito para eu finalmente conhecer a menina linda.

Dei um jeito de escapar do meu pessoal no momento da virada e fiquei esperando para ver aonde ela iria. Em distância segura acompenhei-a até perto dos pescadores onde tem um posto de gasolina na beira do costão. Ali ela ficou com os amigos e a família (pelo que deduzi).

Logo após o espetáculo de fogos de artifício ela estava dançando sozinha. O momento perfeito para eu me aproximar, me apresentar e quem sabe conhecê-la. Ela dançando sozinha e eu cheguei perto, hesitei, mais um passo, ela deslumbrante dançando as várias músicas que tocavam ao mesmo tempo dos diversos carros. Muita gente, muitas garrafas balançando.

Mas dois passos eu estaria ao lado dela, tocaria em seu ombro e a chamaria delicadamente para conversar. Um estrondo de rojão meio próximo e num décimo de segundo ela caiu a meus pés, muito sangue na cabeça. A multidão se afastou, abaixei para ajudar mas alguém tomou minha frente. Mal consegui vê-la desacordada, vermelho e preto manchando seus cabelos. A menina linda sucumbiu num estouro de felicidade antes mesmo de me conhecer. Virou celebridade, o que, com minha timidez, impediu que eu a tivesse.

No próximo verão não haverá a menina da praia. Onde estará o imbecil que soltou o rojão na multidão?

:: 07.01.2009 ::